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Agosto Lilás: Violência pode acabar, mas trauma permanece: psiquiatra explica marcas invisíveis deixadas nas mulheres

  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

10/08/2026


Depressão, ansiedade, crises de pânico e transtorno de estresse pós-traumático estão entre as consequências que podem persistir mesmo depois do fim das agressões


A violência contra a mulher pode deixar marcas que não aparecem em exames ou fotografias, mas permanecem por muito tempo depois que a agressão termina. Ansiedade, depressão, insônia, crises de pânico, hipervigilância, perda da autoestima e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) estão entre as consequências que podem comprometer a saúde mental das vítimas e até alterar a maneira como elas percebem a si mesmas e se relacionam com outras pessoas.

 

O alerta ganha dimensão diante dos números da violência contra a mulher no Brasil. Em 2025, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no país, alta de 4% e recorde da série histórica, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. No mesmo ano, 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de feminicídio.

 

No Paraná, foram 87 feminicídios em 2025, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Apesar da queda de 20,2% em relação a 2024, o número mostra que a violência letal continua sendo uma realidade no Estado.

 

Para a médica psiquiatra Dra. Fernanda Sartori, professora na residência de Psiquiatria do Hospital Heidelberg, é importante compreender que o fim da agressão não significa necessariamente o fim do sofrimento.

 

"A violência contra a mulher pode produzir marcas visíveis, mas eu diria que são as invisíveis as mais dolorosas e duradouras. O trauma não termina necessariamente quando a fonte de agressão cessa. Seu impacto psicológico pode modificar profundamente a forma como a pessoa percebe a si mesma, os outros e o mundo ao seu redor."

 

Violência psicológica também deixa consequências

Os dados mais recentes mostram que a violência nem sempre envolve agressões físicas. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou 60.830 ocorrências de violência psicológica em 2025, alta de 16,9% em relação ao ano anterior. O levantamento também contabilizou 286.270 registros de agressões decorrentes de violência doméstica contra mulheres.

 

Segundo a Dra. Fernanda, a violência psicológica pode atingir diretamente a autoestima, a autonomia e a percepção que a mulher tem sobre a própria realidade. Em situações prolongadas, especialmente dentro de relações afetivas, os efeitos podem se tornar ainda mais persistentes.

 

“É muito comum que mulheres descrevam a sensação de viver permanentemente em estado de alerta, como se o perigo ainda estivesse presente. Também podem perder a capacidade de confiar nas outras pessoas e, inclusive, em si mesmas. O sentimento de culpa desproporcional também aparece com frequência, como se fossem responsáveis pelo que aconteceu ou pela dificuldade de conseguir sair daquela situação.”

 

A violência sexual, por sua vez, está associada a maior risco de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) e depressão, além de dificuldades relacionadas ao próprio corpo e à sexualidade. Já a exposição repetida a diferentes formas de violência pode contribuir para quadros de trauma complexo.

 

Violência muda a rotina, o trabalho e os relacionamentos

A dimensão dessas consequências aparece também na 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, que entrevistou 21.641 brasileiras com 16 anos ou mais em 2025. O levantamento aponta que 27% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar provocada por um homem ao longo da vida.

 

Pela primeira vez, a pesquisa também investigou as consequências. A rotina diária foi afetada para 69% das vítimas, o convívio com outras pessoas para 68%, o trabalho para 46% e os estudos para 42%. E os números explicam por que o impacto psicológico pode continuar mesmo após o rompimento da relação: 3,9 milhões de mulheres agredidas ainda conviviam com o agressor (17% das vítimas). Em 70% dos casos, o agressor era marido, companheiro ou namorado.

 

Por que é tão difícil romper o ciclo?

Para a psiquiatra, perguntar por que uma mulher não deixa imediatamente uma relação violenta ignora a complexidade do problema. Medo, dependência financeira, ameaças, preocupação com os filhos, falta de suporte social, envolvimento emocional e esperança de mudança do agressor podem se combinar.

 

“O cuidado precisa reconhecer toda essa complexidade. O acolhimento, livre de julgamentos, é um dos pilares do tratamento. A recuperação envolve reconstruir a sensação de segurança, recuperar a autoestima e restabelecer a autonomia. Psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico, quando indicados, são importantes, mas precisam estar articulados a uma rede de apoio familiar, social, assistencial e de proteção.”

 

Sobre o Hospital Heidelberg

Com uma equipe multidisciplinar formada por 40 médicos psiquiatras e mais outros 50 profissionais de saúde, o Hospital Heidelberg tem atendimento de emergência 24 horas, hospital dia, ambulatório e internamento integral. A instituição conta com duas unidades em Curitiba. Uma fica na Rua Via Vêneto, 2.000, em Santa Felicidade. Para atendimento 24 horas de emergência, siga para a unidade Mercês: Rua Padre Agostinho, 687 - Telefone: (41) 3320-4900 / WhatsApp: (41) 98869-0436.


Créditos: Divulgação.


 
 
 

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