Visão estrutural é essencial para o agro continuar forte
15/09/2026

O cenário macroeconômico que se impõe neste ano eleitoral também pressiona o campo e os vários elos da cadeia do agronegócio. Somam-se às questões das contas públicas, mudanças cada vez mais velozes no mercado de trabalho, que obrigam a ajustes precisos do lado do setor privado para que a produtividade não seja ainda mais atingida.
O curto prazo, apesar de ser importante, também não pode nublar o horizonte. Como ficou nítido no evento Agenda Brasil - Crescimento, Emprego e Competitividade, promovido pelo Sistema CNA/Senar em parceria com o Estadão, todo o setor do agro precisa olhar para os próximos 30 anos. Segundo especialistas, autoridades e representantes do setor produtivo reunidos em São Paulo, a visão estratégica é a base do desenvolvimento.
Dois estudos inéditos encomendados pelo Sistema CNA/Senar foram divulgados durante o evento e serviram de base para as discussões.
Além disso, o evento debateu algumas das necessidades para o setor, como a liberação do crédito de forma estrutural. Além disso, outro gargalo importante a ser atacado, segundo João Martins, presidente da CNA, é a cadeia de fatores ligada às contas públicas. Na avaliação do dirigente, o descontrole dos gastos tornou o ambiente econômico hostil ao investimento, num país que, apesar da abundância de recursos, ainda convive com uma parcela expressiva da população em situação de vulnerabilidade. "Vivemos entre a abundância potencial e a privação efetiva", afirmou.
Os juros elevados, segundo Martins, tiram a capacidade de investimento e fazem aumentar as dívidas das empresas e famílias O problema, acrescentou, já alcança também o agronegócio, que enfrenta uma crise de endividamento. "O ajuste das contas do governo não é mais uma escolha, é uma necessidade imperativa", afirmou Martins. Para ele, a proximidade das eleições deveria abrir espaço para um debate sobre medidas capazes de preservar empresas, empregos e a capacidade produtiva do País.
A responsabilidade fiscal também tem uma outra vertente importante, segundo a senadora Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Para ela, a forma como se gastam os recursos públicos disponíveis também precisa ser debatida. "Esse dinheiro é que tem que ser aplicado com maior cuidado, com maior responsabilidade, porque ele não é dos gestores públicos. Ele é do povo brasileiro", defendeu.
Gente no campo
A dificuldade dos produtores rurais em encontrar mão de obra também esteve no centro dos debates. Principalmente por causa dos dados trazidos por um estudo encomendado pela CNA ao Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
De acordo com a análise, 44,5% dos entrevistados afirmaram que a mão de obra é hoje o principal desafio da atividade, à frente de custos, clima e preços. E 94,8% dos produtores rurais pesquisados disseram que enfrentam alguma dificuldade para contratar trabalhadores.
São números que refletem uma transformação profunda do trabalho rural nos últimos anos. Urbanização, aumento da escolaridade e novas oportunidades profissionais reduziram a base tradicional de recrutamento, enquanto a própria atividade passou a exigir profissionais mais qualificados. Entre 2012 e 2025, o número de trabalhadores da agropecuária com ensino médio cresceu 114%; entre aqueles com nível superior, o avanço foi de 155%.
A questão da mão de obra, segundo o estudo, interfere nas decisões dentro das propriedades. Entre os entrevistados, 48,7% relataram atrasos em operações e 48% adiaram ou desistiram de planos de expansão. Outros 42,6% anteciparam investimentos em mecanização ou automação e 42% reduziram a produção.
Contas sob pressão
Números analisados pelo estudo Orçamento Público: Qualidade do Gasto e Responsabilidade Fiscal, apresentado durante o Agenda Brasil, mostram o desafio que existe no Brasil nos próximos meses. A dívida bruta do governo geral está em 82% do Produto Interno Bruto (PIB). Pela projeção da Instituição Fiscal Independente (IFI), poderá alcançar 95,5% do PIB em 2030.
Nos 12 meses encerrados em julho, o País pagou R$ 1,16 trilhão em juros da dívida. O levantamento chama atenção também para a composição das despesas: Previdência Social e Assistência Social concentraram mais de 60% dos R$ 2,3 trilhões pagos em 2025, sem considerar encargos especiais.
Com boa parte do orçamento comprometida e o governo federal negando que exista um descontrole fiscal no País, sobra pouco espaço para investimentos e políticas capazes de sustentar o crescimento. É um dilema, segundo os especialistas, que deverá ser olhado com muito critério por quem assumir a Presidência em janeiro.
Créditos: Estadão Conteúdo







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