Sem metáforas e com presença: como falar sobre a morte com as crianças de forma saudável
29/10/2026

Diante da perda de um familiar ou até mesmo de um animal de estimação, o primeiro impulso de muitos pais e cuidadores é tentar proteger a criança do sofrimento. Frases como "ele foi dormir", "foi viajar" ou "virou uma estrelinha" são comuns no repertório adulto. No entanto, especialistas alertam que, embora ditas com amor, essas metáforas pouco claras podem gerar confusão, ansiedade e falsas expectativas nos pequenos.
Segundo dados e pesquisas sobre desenvolvimento infantil divulgados pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela Associação Americana de Psicologia (APA), a compreensão do conceito de morte pelas crianças precisa ser construída gradualmente sobre três pilares fundamentais:
Irreversibilidade: o entendimento de que quem morre não volta à vida.
Não funcionalidade: a noção de que todas as funções biológicas e vitais cessam.
Universalidade: a percepção de que a morte é um processo natural e inevitável para todos os seres vivos.
Ao contrário dos adultos, que costumam vivenciar o luto de forma contínua, as crianças lidam com a dor "em doses". Por ainda não possuírem maturidade para processar grandes cargas de estresse emocional por períodos prolongados, elas oscilam rapidamente entre o choro pela saudade e o brincar de faz de conta logo em seguida, um comportamento absolutamente saudável e esperado.
Para a psicóloga Silvana Caetano, que coordena os grupos de apoio ao luto no Grupo Zelo, o principal papel dos pais não é impedir que a criança sofra, mas garantir que ela não enfrente essa dor sozinha. "O luto na infância é uma resposta natural a qualquer ruptura significativa, seja a perda de um parente, o falecimento de um pet, uma mudança de escola ou o divórcio dos pais. As crianças sentem e expressam essa dor de maneira mais comportamental do que verbal. O mais importante não é encontrar explicações perfeitas, mas oferecer escuta, acolhimento e presença. É preciso validar as emoções, ajudando a nomear o que ela sente e mostrando que a saudade é uma forma de amor que permanece", ressalta Silvana.
A psicóloga reforça ainda que rituais simples como desenhar, escrever cartas ou plantar uma semente ajudam o cérebro infantil a concretizar a perda, além de ensinar que o ciclo da vida é natural e contínuo.
Preparação para velórios e cerimônias de despedida
Outra dúvida frequente entre as famílias é sobre a participação das crianças em velórios e sepultamentos. A orientação dos especialistas é que a criança seja incluída, desde que sua vontade seja respeitada e que ela seja devidamente preparada para o ambiente que irá encontrar.
Ana Lícia Dantas, coordenadora de operações do Grupo Zelo, destaca quais orientações práticas devem ser dadas aos pequenos antes da cerimônia: "A participação no velório ajuda a criança a compreender a concretude da despedida, mas ela nunca deve ser pega de surpresa. O adulto deve antecipar o cenário com clareza e doçura, explicando que o ente querido estará em uma urna, parado e de olhos fechados, porque o corpinho dele parou de funcionar. Vale trazer mais alguns detalhes avisando que haverá flores, velas e pessoas chorando porque estão tristes com a saudade" explica Ana Lícia. Para ela, ao dar esse panorama com antecedência e deixar a criança livre para decidir se quer entrar ou quanto tempo quer ficar, transformamos o ambiente em um espaço seguro de acolhimento.
Sinais de alerta: quando buscar ajuda profissional?
Mudanças temporárias no sono, oscilações no apetite, queda pontual no rendimento escolar ou maior necessidade de apego aos pais são reações esperadas após uma perda. No entanto, o acompanhamento psicológico especializado é recomendado quando o sofrimento se mantém intenso por tempo prolongado, acompanhado de isolamento persistente, regressão do desenvolvimento, ansiedade elevada ou agressividade. "Ao falar sobre a morte com clareza, honestidade e respeito ao tempo da criança, os adultos oferecem recursos emocionais valiosos para que ela aprenda a atravessar as perdas inevitáveis da vida com resiliência e amor", completa a psicóloga Silvana.
Créditos: Divulgação.







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