top of page

Saúde mental familiar virou pauta urgente no Brasil: a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio explica o que está por trás dessa mudança

  • 23 de jun.
  • 4 min de leitura

23/06/2026


Christian Erfurt/ Unsplash/Divulgação
Christian Erfurt/ Unsplash/Divulgação


Falar sobre saúde mental deixou de ser tabu. Nos últimos anos, o tema saiu dos consultórios e das publicações especializadas e passou a ocupar conversas cotidianas, redes sociais, ambientes de trabalho e, de forma crescente, o interior das famílias brasileiras.


Esse movimento não é apenas cultural: ele reflete uma mudança real na forma como as pessoas percebem o sofrimento psíquico e na disposição de buscar ajuda antes que a crise se torne insuportável. Para a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, essa virada representa uma das transformações mais significativas do comportamento social brasileiro nas últimas décadas.


O que mudou não foi apenas a disposição de falar. Mudou também a compreensão de que o sofrimento emocional tem origem, contexto e consequências que vão além do indivíduo. A família, como primeiro ambiente de formação psíquica, passou a ser vista com mais atenção como espaço onde padrões se constroem, se perpetuam e, quando necessário, se transformam.


Essa mudança de perspectiva abre possibilidades importantes, mas também traz desafios que nem sempre aparecem nas conversas mais superficiais sobre o tema.


  • Por que a saúde mental familiar se tornou uma pauta tão urgente?


A pandemia funcionou como um acelerador de processos que já estavam em curso. O isolamento forçado colocou famílias inteiras em convivência intensa e contínua, expondo dinâmicas que a rotina frenética de antes ajudava a manter invisíveis.


Conflitos latentes vieram à superfície. Dificuldades de comunicação que pareciam administráveis se tornaram fontes de tensão constante. O sofrimento que existia, mas não tinha nome, passou a precisar de um.


Nesse contexto, a busca por acompanhamento psicológico cresceu de forma expressiva no Brasil Não apenas entre adultos em crise individual, mas entre famílias que perceberam que algo no funcionamento das suas relações precisava de atenção.


Taiza Tosatt Eleoterio observa que esse movimento trouxe ao consultório um perfil de demanda que antes chegava muito mais tarde, quando o sofrimento já havia se cronificado e as relações já estavam severamente comprometidas.


  • O que a psicanálise enxerga que outras abordagens deixam de lado?


O debate contemporâneo sobre saúde mental é amplo e diversificado, com abordagens que vão da terapia cognitivo-comportamental às práticas integrativas. Cada uma delas oferece contribuições legítimas. A psicanálise, porém, traz uma perspectiva específica que a distingue das demais: ela não trata apenas os sintomas, mas investiga o que os produz.


No contexto familiar, isso significa olhar para além do comportamento que se apresenta como problema e buscar compreender a dinâmica relacional que o sustenta.


Uma criança com dificuldades escolares, um adolescente que se fecha em silêncio, um casal que não consegue resolver conflitos sem escalar para a agressão: em todos esses casos, a psicanálise propõe que o sintoma é uma mensagem, e que tratá-lo sem compreendê-lo tende a produzir resultados provisórios.


É sobre essa lógica que Taiza Tosatt Eleoterio estrutura sua atuação clínica com famílias em diferentes situações de vulnerabilidade e conflito.


  • Como o ambiente familiar molda a saúde mental de forma que poucos percebem?


Um dos aspectos mais relevantes da saúde mental familiar é sua invisibilidade. Os padrões que se constroem dentro de casa raramente são percebidos como padrões por quem está dentro deles.


Eles parecem naturais, inevitáveis, parte de como as coisas simplesmente são. Essa naturalização é o que torna sua influência tão profunda e tão difícil de questionar sem apoio externo.


Crianças que crescem em ambientes de tensão crônica desenvolvem sistemas de resposta ao estresse que persistem muito além da infância. Adultos que nunca aprenderam a nomear o que sentem têm dificuldade em construir relações íntimas baseadas em comunicação real. Famílias que não têm espaço para o conflito saudável tendem a acumular ressentimentos que, com o tempo, corroem os vínculos.


Esses processos acontecem de forma silenciosa, mas deixam marcas que a psicanalista e especialista em relações familiares Taiza Tosatt Eleoterio identifica com frequência em sua prática clínica.


  • Qual é o papel das redes de apoio nesse novo momento da saúde mental?


A ampliação do debate sobre saúde mental também trouxe à tona a importância das redes de apoio que existem além do consultório.


Comunidades, instituições religiosas, grupos de apoio e organizações sociais desempenham um papel que o sistema de saúde formal raramente consegue cumprir sozinho: o de oferecer acolhimento contínuo, acessível e sem a barreira financeira que ainda limita o acesso à psicoterapia para grande parte da população brasileira.


Essas redes não substituem o acompanhamento clínico, mas funcionam como estruturas de sustentação que fazem diferença concreta na vida de famílias em situação de vulnerabilidade.


Para quem não tem acesso imediato a um profissional de saúde mental, saber que existe uma rede de pessoas e instituições dispostas a acolher sem julgamento pode ser o que impede que uma crise se transforme em colapso.


  • O que esse movimento revela sobre o Brasil que está por vir?


A crescente atenção à saúde mental familiar no Brasil não é uma tendência passageira. Ela reflete uma mudança geracional na forma como as pessoas entendem o sofrimento, a responsabilidade coletiva pelo bem-estar e o papel das relações íntimas na construção de uma vida com mais equilíbrio e sentido.


Esse caminho ainda tem muitos obstáculos: acesso desigual a serviços de saúde mental, estigma que persiste em determinados contextos sociais e culturais, e uma oferta de profissionais qualificados que ainda não acompanha a demanda crescente.


Mas a direção mudou, e isso importa. Para Taiza Tosatt Eleoterio, o mais significativo dessa transformação não é o volume de pessoas que passaram a falar sobre saúde mental, mas a qualidade diferente com que essa conversa está sendo feita: com menos vergonha, mais precisão e uma compreensão crescente de que cuidar da mente é tão essencial quanto cuidar do corpo. (Estadão Conteúdo).


Texto por: Saftec Digital


 
 
 

Comentários


Últimas Notícias

bottom of page