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Por que é tão difícil parar de fumar, mesmo sabendo dos riscos? E quais os efeitos dos vapes?

  • 6 de jun. de 2025
  • 5 min de leitura

06/06/2025



A Prefeitura de Campo Largo, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), segue em campanha antitabagismo com o intuito de chamar a atenção para a maior causa evitável de adoecimento e mortes precoces. Uma ameaça abrangente à saúde, o ato de fumar tem impactos devastadores tanto no corpo quanto na mente, e se estende agora à nova mania dos cigarros eletrônicos, também chamados de vapes, pods ou “pen-drive de fumar”.


O psiquiatra Eduardo Rafael da Silva Santos, que atua no Centro de Atenção Psicossocial II (CAPS 2), indica porque é tão difícil parar de fumar, mesmo sabendo dos riscos: “o tabagismo envolve a dependência química, a dependência psicológica, além de fatores individuais como traços de personalidade e doenças presentes em associação ao tabagismo. Desta forma, a interrupção envolve superar uma potente dependência química causada pela retirada da nicotina, a mudança de hábitos profundamente enraizados, além de tratar comorbidades”.


Confira a entrevista com o médico:


Como acontece a dependência química nos fumantes?


Ela ocorre principalmente devido ao efeito da nicotina no cérebro, que acontece de forma muito rápida após fumar, causando bem-estar e prazer. O cérebro se adapta rapidamente a este efeito, desenvolvendo tolerância, dependência física e síndrome de abstinência à retirada. Estas características fazem uma substância ser viciante. Além disso, há outros dois tipos de dependência também: a psicológica e a comportamental. Ambas ocorrem quando o uso acontece com o objetivo de enfrentar estresse ou ansiedade, de obter descontração e prazer, além do hábito ou ritual.


Quais os riscos causados pelo tabagismo?


A queima de tabaco produz milhares de substâncias químicas, muitas delas tóxicas e cancerígenas (como alcatrão, monóxido de carbono, amônia, benzeno). A combustão é a principal causa dos danos e os principais riscos para a saúde física são: desenvolvimento de doenças cardiovasculares (infarto, AVC), câncer no pulmão, leucemia, lesões pulmonares (DPOC e asma). Há também riscos para a saúde reprodutiva como infertilidade, complicações na gravidez, impotência sexual, e riscos para a saúde mental: ansiedade e depressão. Ou seja, apesar do bem-estar imediato, no longo prazo fumar desequilibra o corpo e aumenta a incidência de declínio cognitivo e demência.


O vape também causa dependência? Como ele se compara à dependência do cigarro comum? 


Sim, pois a substância ativa de ambos é a mesma, a nicotina. O aerossol inalado, no caso dos cigarros eletrônicos, traz um efeito mais rápido e intenso, em formato de sais, que acabam não irritando a garganta, permitindo inalar grandes quantidades. Tanto que há relatos de adolescentes e jovens com dependência severa de nicotina. A discrição e a conveniência do dispositivo eletrônico induzem ao erro, pois há usuários de vape que relatam se sentirem menos viciados do que ao fumarem cigarros tradicionais. Porém, ainda que ele possa ser usado em lugares onde o cigarro é proibido, e tenha cheiro menos perceptível, é tão nocivo quanto, só conta mesmo com uma “nova roupagem”. Outros usuários relatam que o vape é igual, ou mais viciante, e uma preocupação crescente é o “dual use”, ou seja, indivíduos que fumam cigarros tradicionais e vapes simultaneamente.


Há alguma evidência de que o uso de vape pode afetar a saúde mental? 


Há uma forte associação entre o uso de vape e o aumento de sintomas de ansiedade, depressão e outros transtornos mentais, especialmente em adolescentes. A dependência da nicotina e as flutuações de humor associadas à abstinência contribuem para isso. Seu uso também pode impactar negativamente a qualidade do sono. Jovens que usam cigarros eletrônicos têm mais chances de se tornarem fumantes na vida adulta, além de possuírem uma taxa mais elevada de outras dependências químicas.


Se alguém usa vape para tentar parar de fumar cigarro tradicional, essa estratégia é eficaz e segura? 


É uma estratégia bastante controversa. Além de não existir evidências seguras, não é possível falar em eficácia e segurança quando se compara dois elementos lesivos e prejudiciais.


Quais os riscos específicos dos dispositivos eletrônicos de fumar? 


Aqui no Brasil a comercialização, importação, fabricação, distribuição, armazenamento e transporte são proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009. Então esses dispositivos chegam às mãos dos consumidores principalmente através de contrabando e venda ilegal, fabricação clandestina. Não há um controle de qualidade. O consumidor pode estar utilizando produtos adulterados e prejudiciais, é praticamente impossível ter certeza sobre o que se está consumindo dentro de um vape.


Com relação aos riscos, são os mesmos da dependência de nicotina, sendo que nestes casos as concentrações são altas, geralmente maiores que os cigarros tradicionais. Há danos pulmonares, irritação e inflamação pulmonar devido ao aerossol quente e substâncias irritantes, danos ao cérebro que podem afetar áreas relacionadas à atenção, aprendizado, memória, controle de impulsos e humor, aumentando a vulnerabilidade a outros vícios e problemas de saúde mental.


E quais são os sinais da abstinência? 


São sintomas físicos e psicológicos como fissura intensa, tremor, irritabilidade, náuseas, cefaleia, ganho de peso. A preocupação é que a abstinência faz com que o indivíduo não suporte os sintomas e tenha recaídas. Os pacientes portadores de transtornos mentais têm uma dificuldade maior para a interrupção do tabagismo.


Precisa fazer tratamento para ajudar a parar de fumar? 


Sim, pois parar não é tão simples quanto o pensamento de “ter força de vontade”. Envolve a superação de uma potente dependência química que altera o funcionamento cerebral, a mudança de hábitos e rituais profundamente enraizados e, muitas vezes, o manejo de questões de saúde mental subjacentes. Por isso, a abordagem profissional, que pode incluir psicoterapia, terapia de reposição de nicotina e medicamentos específicos, é fundamental para aumentar as chances de sucesso.


Como a família e os amigos podem ajudar quem quer parar de fumar? 


Oferecer apoio emocional é fundamental. Compreender, escutar, encorajar. Criar um ambiente livre do tabaco. Incentivar a busca por profissionais. Ajudar a desenvolver novas rotinas e hábitos saudáveis. Evitar pressão ou críticas excessivas.


Quais são os sinais de que a pessoa tentando parar de fumar precisa de ajuda profissional? 


As tentativas frustradas dela de interromper sozinha, associada a sintomas de abstinência severos e insuportáveis. Também se tem a presença de transtornos mentais concomitantes e recaídas frequentes. A falta de suporte social ou ambiente desfavorável também causam impacto negativo na qualidade de vida, mostrando que é hora de pedir ajuda.


Como buscar tratamento – A Secretaria Municipal de Saúde de Campo Largo oferece um Programa de Tratamento para Cessação do Tabagismo destinado a ajudar pessoas que desejam parar de fumar, vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e gratuito. Saiba mais aqui e participe do programa municipal.


Por fim, o psiquiatra Eduardo Rafael da Silva Santos aconselha: “se você já tentou parar de fumar e não conseguiu, saiba que isso é comum e faz parte do processo de recuperação de uma dependência. Cada tentativa é um aprendizado valioso. O importante é não desistir, pois a sua capacidade de mudança é maior do que a sua dependência”. E complementa: “para quem ainda não experimentou: não comece. O caminho para a dependência é mais fácil do que a saída. Preserve a sua saúde, sua liberdade e seu futuro”.


A estrutura municipal também recebe denúncias anônimas sobre comercialização ilegal dos dispositivos eletrônicos, basta ligar no número 153 da Guarda Municipal, ou ainda no Disque Denúncia 181, número para denunciar crimes no estado.


Foto ilustrativa: Freepik

 
 
 

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