Opinião
- há 1 dia
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27/07/2026
Maiêutica - Que... Quê é isso?

No artigo anterior, refletimos sobre a tendência de transferir ao Poder Judiciário a solução de conflitos que, muitas vezes, poderiam ser resolvidos pelos próprios envolvidos. Se é verdade que nem todo conflito precisa ser resolvido por um juiz, surge a questão: como ajudar as pessoas a encontrarem, por si mesmas, caminhos para a construção de soluções? Como fazer com que as pessoas possam servir-se do seu próprio entendimento?
Kant diria ser necessário esclarecer as pessoas: dar a elas condições de servirem-se do seu próprio entendimento sem a tutela de outrem.
Talvez esse esclarecimento possa ser encontrado em uma antiga lição da filosofia socrática.
Sócrates, considerado o fundador da filosofia moral, utilizava-se daquilo que conhecemos por maiêutica (grego maieutike - dar a luz), tido como método de aprendizado (no sentido de aprender com a vida, fazer nascer as próprias ideias, partejar), que consiste em responder perguntas com outras perguntas e indagações, estimulando a reflexão.
O conhecimento, segundo a percepção de Sócrates, só aflora à consciência mediante questionamento em um jogo de perguntas e respostas. As ideias não nascem sozinhas e devem receber ajuda para vir ao mundo tal qual um parto. Conforme descreve Kay Hoffman, ele não afirmava ser o dono da verdade, mas ajudava os outros a buscar a verdade com os próprios passos. Nas palavras de Sócrates (segundo Platão): “Nada dou a luz por sabedoria. Deus me obriga a ajudar no parto, mas nega-me a própria gestação”.
Aurélio define maiêutica como processo dialético e pedagógico socrático, em que se multiplicam as perguntas a fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito geral do objeto em questão.
Passados mais de dois mil anos, a lição permanece atual.
Para compor os conflitos, mantendo a convivência pacífica entre as pessoas, é fundamental ao juiz, ao conciliador, ao mediador, ao facilitador de práticas restaurativas, ao árbitro... perguntar. Saber formular perguntas, com abordagens criativas para descobrir onde se escondem os verdadeiros interesses.
A solução de cada caso é única e recomenda a aplicação de experiência diferenciada. A condução do processo de tratamento de conflitos pela mediação, é uma arte que mais se aprende, quanto mais se pratica. O verdadeiro mediador de conflitos sabe perguntar e faz com que os interessados, por suas respostas, solucionem o caso. Assim também em outros métodos consensuais (negociação, conciliação e facilitação em práticas restaurativas).
Diariamente, parte dos conflitos é solucionada diretamente pelas pessoas sem intervenção de um terceiro. Outras vezes os métodos consensuais auxiliam as pessoas a chegar a um consenso por suas próprias ideias. Só quando isso não é possível ou quando inviabilizam-se soluções pacíficas complementares é que se impõe a atuação do Poder Judiciário.
Está nas mãos das pessoas buscar tratativas diretas (negociação) ou assistidas (conciliação, mediação e justiça restaurativa) a fim de ajustar suas pretensões. O campo de consenso é amplo e a livre manifestação de vontade das partes é lei entre elas e será sempre respeitada.
A maiêutica pode ser utilizada por qualquer pessoa, nas suas relações diárias, e é instrumento de primeira grandeza, para a pacificação de conflitos.
Na forma de abordagens criativas, nas perguntas, estão os segredos do sucesso da mediação, que conduz as pessoas à percepção de seus reais interesses.
Talvez resida aí um dos maiores ensinamentos de Sócrates: muitas vezes, a solução de um conflito não começa com uma resposta, mas com a pergunta certa.
E você, o que lhe parece? Estamos mais preocupados em convencer o outro ou em compreender seus verdadeiros interesses? Vamos dar a luz às nossas próprias ideias?
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Desembargador TJPR, Diretor-Geral da Escola Judicial do Paraná e Professor da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados







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