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O medalhão de Machado de Assis

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

06/05/2026



Creia-me, leitor, que a advocacia é o solo mais fértil para a semente do medalhão.

Seguem os conselhos de Machado de Assis, digo, de um pai para o filho que cursou Direito.

Não falo do Direito que se estuda nos alfarrábios, coisa árida e, a bem dizer, perfeitamente dispensável para quem almeja o brilho das gazetas e o respeito das antessalas.

O advogado que se preza de ser medalhão não busca a verdade; busca o verniz.

Note-se o porte: a gravidade do busto, o olhar que flutua entre a severidade e a complacência, como se carregasse nos ombros todo o peso de Têmis sem, contudo, desmanchar o nó da gravata.

A eloquência, oh! a eloquência!

Deve ser um deserto de ideias originais.

Fuja da análise profunda como o diabo da cruz.

Prefira os lugares-comuns, as frases feitas, o "pacta sunt servanda" dito com o bico dos lábios, pois a originalidade é um despropósito que gera dúvidas, e a dúvida é a inimiga do sucesso social.

O tribunal, para o nosso causídico, não é um recinto de justiça, mas um palco de sombras chinesas.  O que importa é a ressonância da voz, o adágio latino bem colocado (ainda que mal traduzido) e a arte de dizer muito sem proferir nada que se aproveite. Se o constituinte é culpado ou inocente, isso é detalhe de somenos diante da oportunidade de luzir um par de punhos de linho.

O medalhão é, antes de tudo, uma negação do espírito crítico.

No foro, ele é a estátua que caminha. Ele não pensa, ele repete; e nessa repetição encontra a paz dos justos e a admiração dos tolos.

Veja como ele sobe! Cada "data venia" é um degrau na escada da consideração pública.

Se porventura lhe ocorrer uma ideia própria, abafe-a!

Enterre-a no quintal da consciência. O mundo prefere o eco ao som original, pois o eco é familiar e não exige o esforço da compreensão.

O advogado-medalhão é, portanto, o triunfo do invólucro sobre o conteúdo.

É a vitória da cartola sobre o cérebro.

No fim da lida, quando ele fechar os códigos e guardar a beca, restará a imagem impecável de um homem que nunca perturbou a ordem das coisas com o escândalo de um pensamento novo.

E se a posteridade não o ler, pouco importa; ele terá tido o jantar, a comenda e o cumprimento de rua.

É o que basta.

A glória é, afinal, uma questão de publicidade, e a alma... bem, a alma é uma metáfora que não paga às custas do processo.

 

Por: Cláudio Henrique de Castro -Advogado, Pós-Doutor em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, UFSC e PUCPR.Doutor(UFSC), Mestre (UFPR).Professor Adjunto na UTP.

 

Foto: Divulgação


 
 
 

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