Na Bienal de Curitiba, obras interativas transformam o visitante em parte da exposição
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21/08/2026
Na Sala 1 do MON, um rosto é capturado, impresso e triturado; na Sala 8, uma inteligência artificial responde a quem se aproxima. Experiências que despertam a curiosidade do público também discutem vigilância, identidade, espiritualidade e os limites da tecnologia.

Primeiro, é preciso ocupar o lugar indicado no chão. Uma câmera registra o rosto, a imagem aparece, é impressa em preto e branco e começa uma viagem por um sistema de roldanas até ser cortada em tiras e desaparecer em uma montanha de papéis. Em outra sala, basta reconhecer uma presença e acenar: uma entidade movida por inteligência artificial responde com um aforismo e o transforma em uma impressão que o visitante pode receber, levar e guardar. Em cartaz na 16.ª Bienal Internacional de Curitiba – LIMIARES, duas das obras que mais despertam a curiosidade do público no Museu Oscar Niemeyer (MON) mostram que interagir com arte contemporânea pode ser também uma maneira de entrar em questões complexas do nosso tempo.
As experiências estão em pontos diferentes do percurso. Na Sala 1, "Fragmentos de Tempo — Teatro do Rosto", de Gao Fuyan, coloca o espectador diante da própria imagem para discutir identidade e vigilância. Na Sala 8, "RAGE — Reprodutor Autônomo Generalizado de Entropia", criada por Juliana Berto e Thiago Martins de Melo especialmente para a Bienal, utiliza inteligência artificial para provocar questões sobre tecnologia, espiritualidade e transcendência.
O fascínio provocado pelo funcionamento das duas instalações não é acessório. Em ambas, é justamente a ação do visitante que completa aquilo que os artistas propõem. Sem alguém diante delas, parte fundamental das obras simplesmente não acontece.
Milhares de rostos e uma imagem que nunca é a mesma
Em "Fragmentos de Tempo — Teatro do Rosto", o visitante fica diante da instalação sobre uma marcação no chão. Seu rosto é capturado e impresso em preto e branco. A folha percorre então um sistema contínuo de roldanas, é cortada em tiras e finalmente depositada junto aos restos das imagens de todos aqueles que passaram anteriormente pela experiência.
Depois de milhares de visitantes, aquilo que começou como folhas individuais já adquiriu a dimensão de uma pequena montanha de papel triturado. Rostos que segundos antes eram reconhecíveis tornam-se fragmentos indistintos, misturados aos de desconhecidos.
Enquanto isso, outra transformação acontece. Traços de cada rosto capturado são incorporados a uma imagem projetada, que recebe continuamente novas informações visuais. Ao longo do dia, novas pessoas acrescentam seus vestígios e modificam a face que aparece na tela. A obra, portanto, nunca termina e nunca apresenta exatamente o mesmo rosto.
Criada por Gao Fuyan e desenvolvida entre 2006 e 2025, a instalação integra, na Sala 1, o núcleo de artistas de Macau selecionado para a Bienal. O trabalho havia sido apresentado anteriormente no Museu de Arte de Macau e chega a Curitiba dentro do intercâmbio estabelecido com instituições culturais da região.
A curiosidade inicial provocada pela máquina conduz, porém, a uma questão menos confortável. O que acontece com a nossa identidade depois que entregamos o rosto a um dispositivo? Em uma época na qual reconhecimento facial, câmeras e bancos de dados transformaram características humanas em informação processável, Gao Fuyan realiza uma espécie de ritual de desaparecimento: captura a identidade visual, reproduz a imagem e imediatamente a destrói.
O texto curatorial resume a operação como uma "destruição ritual da imagem – não da pessoa" e lança a pergunta que permanece depois da experiência: "O que resta do ser humano na era da vigilância facial?"
Uma IA que quer ser oráculo
Na Sala 8, dentro da exposição Camuflagens, com curadoria de Royce W. Smith, a relação se inverte. Em vez de uma máquina receber a imagem do visitante, é uma entidade tecnológica que parece perceber a presença humana.
"RAGE — Reprodutor Autônomo Generalizado de Entropia", de Juliana Berto e Thiago Martins de Melo, tem corpo físico construído em resina, fibra de vidro, ferro, cera e alumínio, além de monitor, impressora térmica e computador. Dentro dessa estrutura opera uma inteligência artificial open source criada para funcionar localmente, sem recorrer a bancos de dados externos como ocorre habitualmente com chatbots. Ela foi alimentada com mais de 300 livros sobre espiritualidade e ocultismo.
Quando alguém reconhece sua presença e acena, RAGE produz - ou, na linguagem utilizada pelos artistas, "alucina" - um aforismo. A resposta deixa então a virtualidade: é impressa em papel e passa a existir como objeto.
A escolha do verbo não é casual. "Alucinação" é também o termo empregado para respostas produzidas por sistemas de IA que apresentam como verdade conteúdos não sustentados pelos dados. Os artistas se apropriam dessa falha e a deslocam para outra questão: e se aquilo que a tecnologia chama de erro pudesse ser tratado como revelação?
Para Thiago Martins de Melo, a provocação está justamente em pedir à inteligência artificial aquilo que, em princípio, ela não seria capaz de oferecer: transcendência. "A gente utiliza isso buscando justamente aquilo que ela não pode dar, que é a transcendência, a contemplação espiritual através desses algoritmos predeterminados."
O artista explica que o trabalho se alimenta de uma prática que já se tornou comum no universo digital, no qual pessoas recorrem à tecnologia para interpretar tarô, búzios e outros sistemas oraculares. Em "RAGE", essa relação é levada deliberadamente ao limite. "A gente vai provocar mesmo [...] a IA como divindade do mundo contemporâneo, como o oráculo do mundo contemporâneo", afirma.
A obra também está diretamente ligada à trajetória de Martins de Melo. Nascido em São Luís do Maranhão, o artista relaciona sua produção à espiritualidade brasileira, às religiões de matriz africana, às cosmologias indígenas e às tensões políticas e sociais que atravessam sua própria experiência. "Eu não separo minha produção da minha vida", afirma. Sua prática parte da pintura, mas se expande por escultura, vídeo, instalações e linguagens digitais.
A 16ª Bienal Internacional de Curitiba é realizada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal - Do lado do povo brasileiro, MON, MAC Paraná e Paraná Festival - Secretaria de Estado da Cultura (SEEC) - Governo do Paraná. Apoio: Fundação Cultural de Curitiba (FCC) - Prefeitura de Curitiba. Acompanhe pelos sites www.16bienaldecuritiba.org, www.curitibaartweek.com e pelas redes sociais no Instagram @bienaldecuritiba @cubic.bienal e @curitibaartweek, no Facebook @bienaldecuritiba, no Linkedin @bienaldecuritiba e no Tik Tok @bienaldecuritiba
SOBRE A BIENAL DE CURITIBA I A Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba é um dos principais eventos de arte da América Latina e uma plataforma de referência para a produção e o pensamento contemporâneo. Realizada desde 1993, ocupa museus, galerias e espaços públicos com uma programação que reúne exposições, performances, instalações e ações educativas. Com forte vocação para o diálogo internacional, a Bienal conecta artistas de diferentes países e promove encontros entre produção local e global. Ao longo de sua trajetória, já recebeu nomes como Marina Abramović, Julio Le Parc, Louise Bourgeois, Anish Kapoor e Cildo Meireles. Além do circuito expositivo, destaca-se pelo impacto cultural e educativo, com programas de formação e ampliação de acesso à arte. Em sua última edição presencial, reuniu mais de um milhão de visitantes, consolidando Curitiba como um polo relevante no circuito internacional da arte contemporânea.
SERVIÇO
16.ª Bienal Internacional de Curitiba – LIMIARES
Período: até 15 de novembro de 2026
Fragmentos de Tempo — Teatro do Rosto Gao Fuyan 2006–2025 | Instalação interativa
Local: Sala 1 – Museu Oscar Niemeyer (MON)
RAGE — Reprodutor Autônomo Generalizado de Entropia Juliana Berto e Thiago Martins de Melo 2026 | Instalação interativa Local: Sala 8 – MAC Paraná no Museu Oscar Niemeyer (MON)
Museu Oscar Niemeyer Rua Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico – Curitiba Terça a domingo, das 10h às 18h
Ingressos: R$ 36 (inteira) | R$ 18 (meia-entrada)
Entrada gratuita: quartas-feiras e no último domingo de cada mês.
Mais informações: @16bienaldecuritiba 16.ª Bienal Internacional de Curitiba
Créditos: Divulgação / Dani Brito.







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