Frente Parlamentar debate impactos da guerra no Oriente Médio e a necessidade de transição energética no Paraná
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17/03/2026

A Frente Parlamentar do Hidrogênio Renovável e Biocombustíveis da Assembleia Legislativa do Paraná promoveu um encontro hoje (17), no Auditório Legislativo, para debater os impactos geopolíticos da guerra do Oriente Médio no mercado de commodities e o papel estratégico do Paraná. Como resolução, o grupo de trabalho vai encaminhar um ofício ao ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, solicitando o aumento da mistura de biodiesel de 15% para 20% no diesel, uma vez que já há falta do combustível no mercado, e também para estimular a transição energética. A reunião foi conduzida pela presidente da Frente, deputada Maria Victoria (PP).
Em sua fala de abertura, a deputada Maria Victoria afirmou que o tema é hoje um dos mais relevantes para o momento econômico do Paraná, especialmente diante do cenário internacional e das discussões globais sobre segurança energética. Segundo ela, o Estado já desponta como protagonista graças à forte produção de soja e milho, matérias-primas essenciais para os biocombustíveis, e deve ganhar ainda mais destaque com a divulgação, prevista para outubro, na Alemanha, do novo mapa mundial da transição energética durante a COP.
A parlamentar também alertou para os impactos da guerra no abastecimento de combustíveis, especialmente o diesel, e defendeu a ampliação da mistura de biodiesel como estratégia para reduzir a dependência externa. “Talvez seja o assunto mais importante pertinente do momento econômico do Estado do Paraná. Precisamos antecipar a mistura para 20% de biodiesel no diesel para nos colocar em uma posição significativa na economia mundial”, afirmou.
Maria Victoria destacou ainda que o Paraná possui grande potencial na produção de etanol e pode ampliar sua liderança no setor de combustíveis sustentáveis, gerando emprego e renda. A deputada informou que a Frente Parlamentar pretende discutir medidas concretas, incluindo a apresentação de requerimento solicitando a antecipação dessa ampliação da mistura.
“Queremos utilizar todo o potencial do Paraná para sermos, de fato, protagonistas no mundo em transição energética”, declarou, acrescentando que o Estado já é referência internacional, inclusive para os Estados Unidos na adoção de fontes renováveis e na substituição de combustíveis fósseis.
O vice-presidente do Grupo Potencial, Carlos Eduardo Hammerschmidt, destacou a importância de ampliar o debate sobre a transição energética no Paraná, especialmente por meio da Frente Parlamentar do Hidrogênio da Assembleia Legislativa, que passou a contemplar também os biocombustíveis.
Segundo ele, o atual cenário internacional de instabilidade, com conflitos no Oriente Médio afetando rotas estratégicas por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, evidencia a vulnerabilidade energética global. “O biocombustível tem fundamental importância para complementar a cadeia energética. O Brasil está preparado para aumentar o percentual de mistura de biodiesel ao diesel, que é o principal combustível do transporte e do agronegócio”, afirmou. “Segurança energética é segurança geopolítica. Nós podemos ter isso para nós e ainda fornecer isso para outros países”, contribuiu Patricia Arantes de Paiva Medeiros, da Sociedade Rural Brasileira.
Hammerschmidt também ressaltou que os avanços tecnológicos já permitem aplicações mais amplas, como ônibus movidos integralmente a biodiesel, capazes de reduzir custos para os municípios em um momento de incerteza econômica internacional. Para ele, o Paraná reúne condições estratégicas para liderar esse processo por ser um dos maiores produtores de grãos do país. “Sendo o segundo maior produtor de grãos do Brasil, precisamos debater o incentivo à industrialização dentro do Estado. Ao industrializar milho e soja aqui, geramos valor, riqueza, empregos e independência energética”, defendeu, acrescentando que a produção local de biocombustíveis pode proteger a economia paranaense dos impactos de crises externas e oscilações no preço do petróleo. Outro ponto alertado por ele é a possibilidade de subida dos preços dos fertilizantes, o que afeta muito o agro paranaense.
Donizete Tokarski, diretor-superintendente da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), apontou para a necessidade de os biocombustíveis serem vistos como política de Estado. “Nossa sugestão é que elaborem um mapa do caminho da transição energética do Paraná, fazendo com que o Paraná seja o primeiro a apresentar esse caminho. Também é importante trazermos para essa discussão a agricultura familiar. Hoje são 40 mil produtores que estão de alguma forma envolvidos no selo do biocombustível social, e isso pode aumentar ainda mais. São muitas oportunidades”, sugeriu.
O prefeito de Toledo, Mário Costenaro, ressaltou a relevância de promover o debate sobre transição energética na Assembleia Legislativa em um contexto internacional marcado por conflitos e incertezas. Segundo ele, o momento evidencia não apenas a necessidade de evoluir na geração e no consumo de energia, mas também de transformar desafios ambientais em soluções sustentáveis.
“Estamos em um momento em que essa transição energética se mostra muito oportuna. Para municípios como Toledo e toda a região Oeste, que têm forte produção de proteína animal, existe um grande potencial de transformar passivos ambientais em novas oportunidades, gerando energia e um ambiente mais sustentável”, afirmou. Toledo possui o maior VBP (Valor Bruto de Produção) Agropecuária do Paraná há 12 anos, atualmente na casa de R$ 4,72 bilhões.
Gás
Rafael Lamastra Junior, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado, destacou que já há uma transição energética avançada no Brasil e que é necessário pensar na adição energética, que foca em atender à demanda crescente com um mix de fontes, frequentemente mantendo fósseis para garantir a segurança energética.
“O Brasil tem uma reserva de gás muito grande e precisamos deixar de depender do diesel importado, que representa 25%. Outra alternativa que precisamos avançar no Paraná é a inclusão do gás natural no projeto de sistemas de incentivo à construção de data centers no Paraná, também da deputada Maria Victoria”.
Eudis Furtado Filho, presidente da Compagas, explicou que alguns de seus clientes estão preocupados com o desabastecimento, cuja possibilidade, segundo ele, hoje é quase zero.
Com relação aos impactos inflacionários, Furtado explicou que eles já estão pagando mais aos fornecedores, mas não repassaram essa conta para os consumidores da rede, o que deve acontecer no segundo semestre.
Ele também deu sugestões para o Brasil não ser tão afetado em situações como essa. “É o uso do biometano. Ele é precificado em reais e corrigido pelo IPCA. Mesmo que seja um pouco afetado, é bastante descorrelacionado com o dólar e outras oscilações do mercado internacional. No entanto, apesar de termos uma oferta de produção abundante de biometano, precisamos, aqui no Paraná, resolver a questão da demanda, incluindo o biometano na frota pesada, como caminhões e ônibus”.
Produtividade, sinergia e outras sugestões
Edward Borgo, presidente do Conselho Regional de Química do Paraná, atentou para a necessidade de estímulo à produção de etanol de milho, muito mais produtivo. “Uma tonelada de cana-de-açúcar produz entre 60 e 70 litros. Uma tonelada de milho, o valor é de 600 a 700 litros”.
Gustavo Possetti, gerente de pesquisa e inovação da Sanepar, ressaltou o poder de sinergia entre os órgãos públicos, privados e do setor produtivo em geral. “Efeitos de sinergia podem mutuamente se somar. Ao tratarmos a água e o esgoto, alguns resíduos surgem. Antes tratados como passivo, hoje são ativos. O lodo de esgoto vira fertilizante na agricultura. Esse mesmo lodo, processado, pode virar um fertilizante organomineral. Assim como essa sinergia pode ser positiva, como nesses exemplos, ela também pode ser negativa. Se esses resíduos não forem coletados, podem gerar eutrofização, por exemplo”, explicou. Ele colocou a empresa à disposição para novos projetos e parcerias.
Lucas Portela, da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), alertou sobre a necessidade de atenção e proteção tributária às matérias-primas para a produção dos biocombustíveis, como o sebo bovino e o UCO (óleo de cozinha usado). “Precisamos desse estímulo para as matérias-primas, não somente para a produção do biocombustível”. Já Vitor Dalcin, CEO da Ambiental Santos Reciclagem de Óleo Vegetal, falou sobre os problemas de fiscalização em alguns setores, como o da reciclagem de óleo. Segundo ele, há um “exército de formiguinhas” fazendo a reciclagem irregular, gerando concorrência desleal para os empregadores legais e ocasionando perdas tributárias ao governo.
Vinicius Pinto, gerente-geral da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), falou sobre o projeto inovador da empresa, da planta de hidrogênio verde em sua unidade em Araucária. O projeto prevê a implantação de uma planta de hidrogênio produzido por eletrólise da água, processo que utiliza energia de fontes renováveis para separar o hidrogênio do oxigênio — sem emissões de carbono. O gás será utilizado na própria operação da empresa, contribuindo para a descarbonização industrial e a redução de custos energéticos. A previsão é que, entre agosto e setembro, já esteja sendo comercializado em todo o Paraná.
Participaram também o presidente emérito do Tecpar, Celso Kloss; Thiago Olinda, representando a Superintendência-Geral de Gestão Energética da Secretaria de Planejamento do Paraná; Gabriel Vieira, diretor de operações portuárias nos Portos do Paraná; Eduardo Marafon, presidente do Tecpar; Amauri Pyziak, assessor de assuntos corporativos da Volvo; e representantes da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP).
Foto: Orlando Kissner/Ale







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