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Estudo cruza ritmo de entrega com aumento de acidentes

8 de out.
4 min de leitura

08/10/2026


Baixar um aplicativo móvel era tão complicado que ganhou meia página de instruções no Estadão de 19 de dezembro de 2005, quando bancos introduziram seus primeiros apps no Brasil. Nessa mesma época, três pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais já estavam publicando um trabalho sobre por que motociclistas profissionais se acidentavam.


O diagnóstico parece atual: metas rígidas aumentavam o ritmo de trabalho e tinham potencial de geração de acidentes. Em outras palavras, o motoboy corria contra o relógio muito antes de os algoritmos chegarem.


Os pesquisadores da atualidade, entretanto, já têm dados para crer que a era dos aplicativos de delivery e mototáxi intensificou o problema. Entre 2016 e 2021, o número de motociclistas entregadores no País cresceu mais de 1.000%, segundo estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). E a expansão não parou: em 2025, o IBGE contabilizou 376 mil entregadores por aplicativo no Brasil. Entre os que têm a plataforma como ocupação principal, o salto foi de 18,6% em apenas um ano.


A taxa de acidentes também cresceu: um estudo com motoentregadores feito antes da expansão das plataformas encontrou 37,1% de trabalhadores com pelo menos um acidente de trânsito no trabalho. Em 2022, a pesquisa EpisSAT Entregadores, da Universidade Federal da Bahia, ouviu 563 entregadores e encontrou 44,1% com ao menos um acidente de trabalho no último ano - sendo que 82,8% desses episódios foram acidentes de trânsito. É mais de dez vezes a prevalência de acidentes da população ocupada brasileira em geral.


Quem morre e quem entrega


De acordo com a pesquisa, 96,3% dos entregadores são homens, metade com menos de 33 anos; cerca de 70% são pretos ou pardos, 88,4% utilizam motocicleta.


Em 2024, as motocicletas responderam por 41,6% das mortes nas vias, segundo o Observatório Nacional de Segurança Viária, com 82% de homens e concentração na faixa dos 20 aos 24 anos. A sobreposição não prova que os aplicativos causaram o salto (nenhum sistema oficial registra se a vítima estava trabalhando na hora da batida) mas dá norte à discussão.


A pesquisa da UFBA perguntou aos entregadores como eles trabalham e cruzou as respostas com os acidentes que sofreram. Dois cruzamentos resumem o achado. O primeiro é o ritmo: entre quem disse trabalhar frequentemente acelerado, 48,8% se acidentaram no ano anterior. Entre quem raramente ou nunca acelera, 33,7%. O segundo é mais duro: dois em cada três entregadores admitiram avançar o sinal vermelho - e, nesse grupo, metade se acidentou.


Entre os entregadores acidentados da pesquisa da UFBA, 56,1% precisaram se afastar do trabalho. Dos que ficaram parados 15 dias ou mais, apenas 20% receberam algum benefício previdenciário. O atendimento foi público em 84,8% dos casos. A ajuda de familiares apareceu como a principal forma de custear as despesas.


O que acelera


Janaína Santos de Siqueira, autora principal do estudo e doutora em saúde coletiva, é direta sobre a origem dessa pressão. "O trabalho de entregadores está repleto de mecanismos de aceleração do trabalho", diz.


Ela descreve a engrenagem, com prazos exíguos para coleta e entrega, "muitas vezes incompatíveis com as condições reais do tráfego e com a condução segura". Perder o prazo gera avaliação negativa, que reduz o envio de novos pedidos e pode gerar bloqueio na plataforma. Como o entregador é pago por serviço realizado, e não pelo tempo em que fica disponível, cada bloqueio é renda que evapora.


O resultado é o que ela chama de pauperização: "O entregador é impelido a fazer a maior quantidade de entregas que for possível, no menor tempo, e aceitando todas as solicitações encaminhadas pela empresa-plataforma digital, ainda que em condições inseguras, para auferir uma renda mínima". Ela observa que as bonificações costumam aparecer nas piores horas. "Muitas destas 'promoções' criadas pelas empresas ocorrem em períodos de chuva ou em momentos festivos."


Lei que parece ignorada


A Lei 12.436 veta empresas e tomadores de serviço de motociclistas estabelecerem práticas que estimulem o aumento de velocidade e lista três delas: oferecer prêmios por cumprimento de metas por número de entregas; prometer ao consumidor a dispensa de pagamento se o produto atrasar; e estabelecer competição entre motociclistas para elevar o número de entregas. A multa vai de R$ 300 a R$ 3 mil, aplicada no grau máximo em caso de reincidência ou de simulação para fraudar a lei.


A Uber contesta desde 2019 a correlação entre aplicativos de entrega e o aumento de acidentes com motociclistas. Naquele ano, quando a Prefeitura de São Paulo negociou o fim dos bônus por número de entregas, iFood aderiu; Uber Eats, não.


De lá para cá, montou um arsenal de segurança viária: alerta de velocidade em 2023, checklist digital antes de o motociclista entrar em operação, selfie para conferir o uso do capacete, seguro de acidentes pessoais com cobertura de até R$ 100 mil e campanhas educativas. A empresa anunciou ainda que passará a premiar em dinheiro motociclistas com histórico de direção segura.


A 99 diz contar com mais de 50 ferramentas de segurança, entre elas alerta de velocidade e bloqueio de motociclistas considerados imprudentes, e sustenta que, em 2024, apenas 0,0003% das corridas terminaram em acidente de trânsito. Foi a primeira plataforma a aderir ao programa municipal de monitoramento de direção segura do Rio de Janeiro: segundo a empresa e a prefeitura, os acidentes com seus motociclistas caíram 24% nos três primeiros meses, e 53% dos monitorados melhoraram o comportamento ao volante.


Já o iFood diz promover o programa Direção Segura, lançado em Porto Alegre em outubro de 2025 e estendido ao Rio neste ano, que usa telemetria para comparar a velocidade do entregador com o limite de cada via e converte o resultado em nota. Essa nota passou a integrar o Score do iFood: quem dirige bem recebe mais entregas; quem apresenta comportamento de risco tem a oferta reduzida até melhorar a nota.

 

 

Créditos: Estadão Conteúdo

Foto: Boca notícias


 
 
 

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