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Entre duas salas, Bienal de Curitiba transforma passagem do MON em exibição de arte

  • há 47 minutos
  • 4 min de leitura

28/08/2026


Obras de Fabianna Gabas Kallas e Froiid ocupam espaço de circulação com um oceano fragmentado e um Mineirão que vibra, aproximando questões como pertencimento, memória, fronteiras e exclusão.



Entre a Sala da África e a Sala 1 da 16.ª Bienal Internacional de Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer (MON), há um espaço que abriga duas obras de grandes dimensões, que interrompem o percurso e estabelecem entre si um contraste imediato. De um lado, "Seascape: o que nos separa é também o que nos conecta", de Fabianna Gabas Kallas, constrói uma paisagem marítima fragmentada em azul. Do outro, "O pombo que escapa ao morcego", do artista mineiro Froiid, transforma o Estádio Mineirão em uma estrutura vibrátil, acionada por mais de 50 horas de registros sonoros de torcidas organizadas.

A aproximação é sobretudo visual no primeiro encontro. Enquanto "Seascape" se expande pela superfície e remete à fluidez do oceano, a instalação de Froiid se impõe como arquitetura, volume e movimento. Mas aquilo que inicialmente parece oposição logo revela afinidades. As duas obras tratam, por caminhos completamente diferentes, de espaços que separam e conectam as pessoas: o mar, que durante séculos foi fronteira e via de circulação; e o estádio, espaço de encontro coletivo que também pode reproduzir processos de segregação.

É justamente nesse intervalo entre distância e proximidade que os trabalhos encontram LIMIARES, conceito curatorial da 16.ª Bienal de Curitiba, assinado por Tereza Arruda e Adriana Almada. As duas obras colocam em questão fronteiras que não são necessariamente linhas desenhadas no território, mas que interferem na maneira como circulamos, convivemos e construímos pertencimento.


Um oceano de fragmentos

Nascida em Catanduva, no interior de São Paulo, Fabianna Gabas Kallas parte de uma das maiores fronteiras naturais do planeta para pensar justamente aquilo que fronteiras são capazes de unir. Realizada em acrílica sobre tecido e madeira, !Seascape: o que nos separa é também o que nos conecta! (2026) apresenta o oceano como uma paisagem simultaneamente física, histórica e simbólica.

Durante séculos, mares estabeleceram distâncias entre territórios, mas foram também percorridos por movimentos humanos que transformaram sociedades inteiras. Por eles circularam culturas, conhecimentos e mercadorias; por eles aconteceram migrações e diásporas. A mesma água que estabelece uma separação geográfica tornou-se, portanto, uma extensa superfície de conexão.

Fabianna constrói essa ambivalência por meio de uma composição que se apresenta como um mosaico fragmentado. As partes permanecem individualmente perceptíveis, mas dependem umas das outras para formar a paisagem. O recurso visual torna concreta uma das ideias centrais da obra: a coexistência entre individualidade e interdependência.

No presente, essa conexão ganhou ainda uma dimensão invisível. Sob os oceanos percorrem redes que sustentam parte das comunicações contemporâneas, enquanto a crise climática torna cada vez mais evidente que alterações ocorridas em um ponto do planeta não permanecem restritas a ele. Fronteira e conexão deixam, assim, de constituir ideias opostas. "Somos, afinal, fragmentos de um mesmo oceano conectados pela mesma água", sintetiza a artista.


O corpo da torcida

A poucos passos dessa paisagem, a obra de Froiid, nascido em Belo Horizonte, parte de outro espaço coletivo: o estádio de futebol. Em "O pombo que escapa ao morcego" (2025), pertencente à Coleção Instituto Bernardo Paz, o artista recria o estádio do Mineirão em uma estrutura de madeira conectada a um sistema de automação. Placa Arduino, servo-motor, sensores, fiação e outros componentes eletrônicos fazem a arquitetura se movimentar a partir de registros de cantos das torcidas organizadas. São mais de 50 horas de material sonoro utilizadas para fazer o estádio tremer.

A escolha transforma em movimento uma experiência conhecida por quem já esteve em uma arquibancada lotada: o momento em que milhares de corpos cantando, pulando e reagindo simultaneamente parecem transferir sua energia para a própria estrutura do lugar. Froiid faz desse fenômeno físico uma espécie de memória mecânica. Mesmo sem a multidão presente, o estádio ainda carrega sua vibração.

Mas há uma dimensão política nessa lembrança. A obra recupera a experiência da antiga "geral", setor dos estádios brasileiros historicamente ocupado pelas camadas populares e progressivamente eliminado durante processos de modernização das arenas. Ao tratar da gentrificação dos estádios e da crescente comercialização do futebol, Froiid chama atenção para uma transformação que ultrapassa a arquitetura: quando um espaço muda, muda também quem consegue ocupá-lo.

Sinos incorporados à instalação acrescentam outra camada ao trabalho, remetendo à presença ambígua da Igreja na história brasileira, simultaneamente associada a estruturas de dominação e a movimentos de resistência.

A 16ª Bienal Internacional de Curitiba é realizada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal - Do lado do povo brasileiro, MON, MAC Paraná e Paraná Festival - Secretaria de Estado da Cultura (SEEC) - Governo do Paraná. Apoio: Fundação Cultural de Curitiba (FCC) - Prefeitura de Curitiba. Acompanhe pelos sites www.16bienaldecuritiba.org, www.curitibaartweek.com e pelas redes sociais no Instagram @bienaldecuritiba @cubic.bienal e @curitibaartweek, no Facebook @bienaldecuritiba, no Linkedin @bienaldecuritiba e no Tik Tok @bienaldecuritiba

SOBRE A BIENAL DE CURITIBA I A Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba é um dos principais eventos de arte da América Latina e uma plataforma de referência para a produção e o pensamento contemporâneo. Realizada desde 1993, ocupa museus, galerias e espaços públicos com uma programação que reúne exposições, performances, instalações e ações educativas. Com forte vocação para o diálogo internacional, a Bienal conecta artistas de diferentes países e promove encontros entre produção local e global. Ao longo de sua trajetória, já recebeu nomes como Marina Abramović, Julio Le Parc, Louise Bourgeois, Anish Kapoor e Cildo Meireles. Além do circuito expositivo, destaca-se pelo impacto cultural e educativo, com programas de formação e ampliação de acesso à arte. Em sua última edição presencial, reuniu mais de um milhão de visitantes, consolidando Curitiba como um polo relevante no circuito internacional da arte contemporânea. 


SERVIÇO

16.ª Bienal Internacional de Curitiba – LIMIARES

Obras

Seascape: o que nos separa é também o que nos conecta Fabianna Gabas Kallas2026 Acrílica sobre tecido e madeira

O pombo que escapa ao morcego Froiid2025

Instalação | Coleção Instituto Bernardo Paz

Local: espaço entre a Sala da África e a Sala 1 – Museu Oscar Niemeyer (MON)Rua Marechal Hermes, 999, Centro Cívico – Curitiba

Visitação: até 15 de novembro de 2026Terça a domingo, das 10h às 18h

IngressosR$ 36 (inteira)R$ 18 (meia-entrada)

Entrada gratuita: Quartas-feiras e no último domingo de cada mês.


Créditos: Divulgação.


 
 
 

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