Ela fugiu da guerra na Síria e hoje transforma resiliência em joias personalizadas com palavras em árabe e aramaico
- admjornale
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04/02/2026

A trajetória da empreendedora síria Myria Tokmaji é marcada por recomeços, coragem e reinvenção. Radicada em Curitiba desde 2013, ela conquistou o terceiro lugar no Prêmio Empreendedora 2025 da Prefeitura de Curitiba na categoria microempreendedora individual com a Ebla Joias, marca autoral que transforma memória, identidade e resiliência em peças únicas, carregadas de significado histórico e cultural.
As joias misturam prata, madeira, madrepérola, bordados aplicados manualmente e inscrições em árabe e aramaico, língua ancestral falada por Jesus Cristo.
Nascida em Alepo, na Síria, Myria cresceu em meio à arte, à música e ao trabalho manual. Filha de ourives, acompanhou desde cedo o processo de criação de joias. Com o início da guerra, no entanto, sua vida mudou drasticamente. Sem poder escolher o destino, ela e a família chegaram ao Brasil de forma inesperada e começaram do zero em Curitiba e São José dos Pinhais.
“Quando você foge de uma guerra, não escolhe para onde vai. Chegamos aqui como quem cai de paraquedas. O choque cultural foi muito difícil, mais do que eu imaginava. Eu estava com espírito de recomeço, mas muitas vezes pensei em desistir”, relembra Myria.
Sozinha, jovem e sem falar português, Myria enfrentou muitas dificuldades. A sobrevivência veio do trabalho artesanal e da memória afetiva. Durante a guerra, sem internet e sem poder atuar com designer gráfico, ela aprendeu crochê com a avó. No Brasil, essa habilidade se transformou em sustento.
“Eu fazia acessórios de crochê, colocava numa caixa de papelão e vendia na saída da igreja. Com isso, paguei aluguel, me mantive e comprei a primeira coisa que lembro até hoje no Brasil, uma bicicleta para conhecer Curitiba”, recorda a empreendedora.
A virada profissional começou com a decisão de investir na formação em design de joias. Sem cursos na área em Curitiba, Myria passou a viajar todos os fins de semana para São Paulo para estudar no Instituto Europeu de Design. “Era um curso caro, cansativo, fazia bate e volta toda semana.
Depois veio a pandemia, seguimos online e consegui concluir o TCC. Todo o projeto da Ebla Joias nasceu desse trabalho final”, explica.
O trabalho é desenvolvido em parceria com o pai de Myria, que retomou a ourivesaria ao lado da filha após perder toda a estrutura profissional construída na Síria.
O reconhecimento no Prêmio Empreendedora 2025 teve um significado especial.
“Quando ouvi meu nome, lembrei da jovem que fugiu da guerra, da mulher que se sustentou vendendo crochê e da empreendedora que escolheu transformar dor em arte. Esse prêmio reconhece esforço, pesquisa e o trabalho de uma família inteira”, afirma.
Esforço premiado
Para o vice-prefeito e secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Paulo Martins, a história de Myria simboliza o poder transformador do empreendedorismo.
“A Myria representa a força de quem transforma desafios extremos em inovação, cultura e geração de valor. É esse espírito que o Prêmio Empreendedora busca reconhecer", afirma Martins.
O presidente da Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação, Dario Paixão, também ressalta a relevância da trajetória.
“O trabalho da Myria carrega identidade, história e propósito, além de mostrar como a diversidade cultural fortalece o ecossistema empreendedor da cidade. Reconhecer trajetórias como esta reafirma o compromisso de Curitiba com inclusão, inovação e oportunidades", diz o presidente.
História que inspira
Hoje, além de comandar a Ebla Joias, Myria atua como palestrante e participa de projetos culturais, compartilhando sua história de superação e incentivando o empreendedorismo. Em suas falas, reforça que oportunidades existem, mas precisam ser buscadas. “No Brasil, qualquer ideia tem público. As oportunidades não caem no colo. Se não existe uma porta, você constrói essa porta”, diz a empreendedora.
Como conselho para quem deseja empreender, ela é direta.
“Às vezes você acha que sua ideia não é importante, mas acredite. O Brasil é enorme, o potencial é gigantesco. Empreender não é fácil, tem burocracia e aprendizado diário, mas a satisfação de ver sua ideia sair do papel não tem preço. O seu limite é você”, incentiva Myria.
Foto: Levy Ferreira/SECOM








