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Data centers: avanço e desafios da infraestrutura que sustenta o mercado de tecnologia

  • há 2 horas
  • 5 min de leitura

19/08/2026


Por trás de cada pesquisa na internet, vídeo em streaming, transação bancária instantânea ou comando enviado a um modelo de inteligência artificial, existe uma estrutura física robusta operando 24 horas por dia, sete dias por semana. Trata-se do setor de data centers, a infraestrutura que abriga os servidores e sistemas de armazenamento responsáveis por processar e guardar o volume colossal de dados que movimenta a sociedade moderna.


Com a aceleração da transformação digital e a explosão da Inteligência Artificial Generativa, esses empreendimentos deixaram de ser vistos como meros galpões de TI para se consolidarem como ativos reais de infraestrutura estratégica, tão vitais para o desenvolvimento de um país quanto rodovias, portos ou redes de energia.


O setor engloba um complexo ecossistema de engenharia civil, elétrica, mecânica e de telecomunicações desenhado para garantir operação contínua e sem falhas. A estrutura é formada pela parte elétrica e de resfriamento, com sistemas de alta voltagem e no-breaks de grande porte, e a parte de segurança e conectividade.


Os modelos de negócios também variam de um espaço para outro e vão desde o Colocation (onde empresas alugam espaço e energia para colocar seus próprios servidores) até os data centers Hyperscale -- instalações gigantescas construídas para atender às demandas de escala global de big techs como Microsoft, Google, Amazon (AWS) e Meta.


O avanço do setor no mundo e no Brasil


No cenário internacional, o mercado global de data centers vive um boom sem precedentes, impulsionado pela corrida da inteligência artificial, que exige capacidades de processamento significativamente maiores do que as aplicações tradicionais de nuvem. Polos consolidados na América do Norte (como a Virgínia do Norte, nos EUA) e na Europa (Londres, Frankfurt, Amsterdã) operam em capacidade máxima, forçando a busca por novas fronteiras de expansão global.


O crescimento se dá também na América Latina. Atualmente, o mercado latino de colocation, locação para hospedagem de servidores e demais equipamentos de empresas, soma 1,1 gigawatts (MW) em capacidade instalada em data centers, volume 16% maior ao registrado desde 2019. A região conta com 683 MW atualmente em construção e um pipeline que ultrapassa 3,8 GW em novos projetos.


Neste contexto, o Brasil conta hoje com 183 data centers em operação, de acordo com relatório da consultoria Newmark, 18 cabos submarinos (no mundo são cerca de 600), a grande maioria localizados na praia do Futuro, em Fortaleza (CE), além de um no Rio de Janeiro (RJ) e outro em Praia Grande (SP). O tráfego que não usa essa via primária é composto por cabos terrestres interligados a países vizinhos, satélites e infraestrutura interna de fibra óptica.


O hub central do País localiza-se no estado de São Paulo (com destaque para municípios como Campinas, Barueri, Santana de Parnaíba e Vinhedo), graças à proximidade com o mercado consumidor e à densidade da malha de fibra óptica. Ao mesmo tempo, novos polos nacionais emergem com força. O Ceará (Fortaleza) destaca-se pelo ponto de ancoragem de dezenas de cabos submarinos internacionais que conectam o Brasil aos EUA e à Europa, enquanto estados do Sul e Nordeste atraem projetos focados na disponibilidade de energia renovável a custos competitivos.


Um exemplo desse movimento é a Omnia, plataforma de data centers hiperescaláveis criada pelo Patria Investimentos para atender à demanda crescente por processamento e armazenamento de dados impulsionada pela inteligência artificial e pela computação de alto desempenho. Seu primeiro projeto, o data center de Pecém (CE), já começou a ser construído e terá capacidade inicial de 200 MW, com potencial de expansão para 1 GW. Segundo a empresa, será o maior da América Latina e o primeiro voltado à exportação de serviços digitais.


A Omnia prevê investir aproximadamente R$ 12 bilhões na implantação da infraestrutura, incluindo edificações, sistemas de missão crítica, infraestrutura elétrica e de conectividade. A operação será integralmente abastecida por energia renovável.


Desafios: energia, água e regulação


Apesar da demanda aquecida e dos bilhões de dólares investidos ou projetados, a expansão dos data centers enfrenta gargalos operacionais e regulatórios no Brasil e no mundo. O principal deles é o consumo intensivo de energia elétrica. Um único complexo de grande porte voltado para Inteligência Artificial pode demandar mais de 100 megawatts de potência, o suficiente para abastecer uma cidade de cerca de 300 mil habitantes.


Em polos consolidados no exterior, a carga exigida por essas estruturas já representa entre 5% e 10% de toda a eletricidade consumida em países como a Irlanda e em estados americanos como a Virgínia, sobrecarregando as redes de distribuição. No Brasil, a matriz energética sustentável e abundante do território nacional tem sido um chamariz na atração de investimentos em infraestrutura, mas a morosidade e a complexidade técnica para obter a liberação de acesso à rede, pode levar bastante tempo.

Outro ponto crítico está no consumo de água e no impacto ambiental dos sistemas de resfriamento. Para evitar o superaquecimento de milhares de servidores operando em capacidade máxima, um data center de médio a grande porte pode consumir entre 1 milhão e 5 milhões de litros de água por dia em sistemas evaporativos tradicionais, volume equivalente ao consumo diário de milhares de famílias. A demanda por recursos hídricos pressiona o setor a investir em tecnologias de refrigeração em circuito fechado ou resfriamento líquido direto nos chips, soluções que reduzem o uso de água, mas elevam o custo de capital do empreendimento.


No projeto de Pecém, a Omnia adotará um sistema de resfriamento em circuito fechado, com baixíssimo consumo de água. O volume máximo projetado é de até 20 metros cúbicos por dia, equivalente ao consumo médio de aproximadamente 46 residências. Desse total, cerca de 3 metros cúbicos serão destinados diretamente à refrigeração; os outros 17 metros cúbicos correspondem ao consumo humano e predial da operação. A expectativa da empresa é que o uso efetivo fique abaixo desse limite.

Por fim, a regulação e o licenciamento urbano tornaram-se determinantes para a viabilidade desses projetos. A falta de regras claras de zoneamento municipal e a demora na obtenção de licenças ambientais para a instalação de grandes subestações e geradores a diesel de emergência criam uma insegurança jurídica que afasta investidores estrangeiros. Além disso, governos ao redor do mundo começam a debater exigências regulatórias mais rígidas para o setor, impondo metas obrigatórias de eficiência energética.


No Brasil, a regulação do setor avança com a Política Nacional de Data Centers e a instituição do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), criado pela Medida Provisória nº 1.318/2025, editada pelo governo federal no final de 2025. A MP, que perdeu a validade para a aprovação no Congresso, garantia a vigência imediata das isenções tributárias de PIS/Cofins, IPI e Imposto de Importação para a infraestrutura dos data centers.


O governo reapresentou a proposta como o Projeto de Lei nº 278/2026, votado e aprovado em regime de urgência pelo Plenário da Câmara dos Deputados, com um texto que manteve a suspensão dos impostos federais mediante as contrapartidas ambientais (como uso de energia renovável e eficiência hídrica) e investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Seguiu para o Senado, onde recebeu emendas e segue sob debate entre os parlamentares para votação final no Plenário.


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Créditos: Estadão Conteúdo

Foto: CNN Brasil


 
 
 

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