Cuidado com o canto da sereia!

19/10/2021


Por Ricardo Alexandre da Silva (*)



Segundo a mitologia grega, as sereias eram belíssimas. O problema é que sua beleza e seu canto maravilhoso atraíam os marinheiros para os rochedos. Seduzidos pelas vozes belas, mas traiçoeiras, os marujos naufragavam. Para escapar dessa terrível sedução, Ulisses, herói do poema Odisseia, escrito por Homero e uma das principais obras da cultura ocidental, cobriu seus ouvidos com cera e se amarrou ao mastro do seu navio. No Brasil, a expressão “canto da sereia” significa algo que engana e ilude.


A conversa sobre sereias vem bem a calhar quando se olha o que a Argentina acabou de fazer. Na quinta-feira passada, o governo argentino anunciou “acordo” com os empresários, determinando o congelamento de 1.247 produtos. A ideia de que congelar os preços ajuda a controlar a inflação é o que se pode chamar de canto da sereia. Ela atrai aqueles que têm esperança em medidas simples. Acontece que a solução mais simples, em muitos casos, é também a mais errada.


Houve, no período recente, congelamento de preços na Argentina em 2006, 2013 e 2019. Funcionou? Não! Tanto deu errado, que a Argentina acumula inflação de 37% nos nove primeiros meses de 2021. Essa incontrolável alta de preços empobrece a sociedade e arruína a economia. Não à toa, a pobreza na Argentina atinge 40% da população.


Os leitores mais velhos se lembrarão do final dos anos oitenta e início dos noventa, em que a inflação brasileira atingiu nível assustador. O dinheiro se desvalorizava tão rapidamente, que os trabalhadores faziam fila nos supermercados assim que recebiam seu salário. Comprar no outro dia significava pagar mais caro. A inflação atingiu o Brasil por décadas e é uma das principais responsáveis pela nossa desigualdade social. Os mais ricos realizavam investimentos para se proteger. Os mais pobres, consumiam tudo o que recebiam, o que aumentava a diferença entre uns e outros.


Novamente se tem falado sobre inflação em nosso país. A projeção é que ela chegue a 8,5% no final de 2021. Nada parecido com o que passamos nos anos oitenta e noventa, mas é necessário ligar o sinal vermelho. Tivemos alta no preço dos alimentos, da energia elétrica e dos combustíveis. Alguns, mais apressados, sugerem que o governo congele preços para controlar a inflação. Cuidado com o canto da sereia!

A solução pode parecer simpática, mas já foi tentada no Brasil e sempre dá errado. Por quê? É fácil explicar. Vamos pensar em uma padaria. Para produzir e vender pães, são necessários, dentre outros itens, farinha de trigo, energia elétrica e funcionários. Obviamente, nada disso é gratuito. Se o governo congelar o preço do quilo do pãozinho em R$ 14,00, o padeiro só continuará a produzi-lo se os seus custos forem menores.


Se a energia, a farinha de trigo e os salários subirem, necessariamente o padeiro terá de aumentar o preço do pão, para não sofrer prejuízo. Ele não faz isso por maldade, mas para manter seu próprio negócio. O que vale para o padeiro, vale para qualquer empreendedor. Se a produção der prejuízo, ele simplesmente vai parar. O congelamento de preços leva à falta dos produtos. Pior que isso: como haverá menos pães e a procura continuará a mesma, o preço deles subirá.


A inflação acontece quando o governo imprime mais dinheiro do que seria necessário. O excesso de moeda causa a alta de preços, mas esse assunto fica para outro dia. O que me interessa neste artigo é cobrir nossos ouvidos com cera, para não acreditarmos em soluções fáceis e erradas. Caro leitor, quando ouvir alguma sereia propondo o congelamento de preços, não se deixe iludir: essa medida só gera falta de produtos e ainda mais inflação. Quem naufraga somos todos nós!


(*) Ricardo Alexandre da Silva é advogado, professor e presidente do IFL – Curitiba.


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