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Crônica de uma alta de juros anunciada

03/05/2022


Por Cristian Rafael Pelliza (*)



Em abril o fato que direcionou o comportamento dos mercados foi a virada na expectativa dos agentes frente aos juros americanos e do próprio comportamento da autoridade monetária nos próximos meses. Em resumo, até antes da pandemia iniciar, o Banco Central dos Estados Unidos (Fed) buscou uma política monetária bastante acomodada, com juros baixos e o chamado quantitative easing, que, de maneira geral, é uma política de injeção de liquidez na economia via recompra de títulos públicos. Com a pandemia o processo foi acelerado e vimos uma injeção monetária maciça.


Os primeiros sinais inflacionários começaram logo nos primórdios de 2021, mas na visão de Jerome Powell era apenas uma inflação transitória, motivada pela alta de preços das commodities e pela quebra das cadeias globais de comércio a partir dos lock-downs de 2020, com escassez de alguns insumos, dificuldades nos fretes e redução de estoques. Mês a mês a inflação americana foi dando sinais de resistência e em novembro de 2021 o Fed abandonou o termo transitória nos seus informes. A perspectiva sobre as elevações de juros e fim da recompra de títulos também foram sendo antecipadas. Para completar o quadro complexo, a guerra da Rússia com a Ucrânia provocou uma elevação gigantesca nos preços das commodities, em particular no petróleo e alimentos. Pouca gente acreditava, no início de 2021, que os Estados Unidos iriam subir juros antes do final de 2022, no entanto, a primeira alta foi em março (modestos 0,25%).


Chegamos ao quadro de abril de 2022: a inflação americana atingiu um acumulado em 12 meses de 8,5%, maior taxa em 40 anos. O Fed sinalizou altas sucessivas na taxa de juros ao longo do ano, com Powell inclusive tendo declarado ao longo do mês que uma alta de 0,5% na reunião dos dias 03 e 04 de maio estava na mesa. O mercado, por sua vez, passou a precificar os juros americanos em até 3% para o final de 2022, com o detalhe de que a taxa de juros considerada neutra (aquela que não impacta sobre a atividade econômica, em particular sobre o nível de emprego) é de 2%. Ou seja, os Estados Unidos estariam entrando em terreno recessivo. Como ponto adicional, o mercado de trabalho americano encontra-se fortemente aquecido, com dificuldade nas contratações, baixos pedidos iniciais de seguro-desemprego e uma taxa de desemprego em 3,8%, apenas.


Desse quadro completo, embora o mercado já esperasse a elevação dos juros americanos há um bom tempo, a mudança na velocidade do ajuste causou uma reação negativa em abril. Vimos os índices de bolsas mundo afora despencando: S&P 500 caiu -8.80%, Nasdaq caiu -13.37% e aqui no Brasil tivemos o Ibovespa recuando -10.10%. Além disso, a expectativa de alta nos juros americanos tem como reflexo um fortalecimento do dólar, já que com oferta monetária menor seu preço aumenta. Vimos isso no mundo inteiro e o real não foi exceção. Depois de subir mais de 15% frente ao dólar até março, a moeda brasileira perdeu quase 5% em abril. Além disso, a volatilidade foi forte, com a taxa de câmbio tendo chegado próxima à 4,60 reais por dólar ao longo do mês e no final do mês passado de 5,00 reais por dólar.


Um outro efeito que se tem quando as taxas de juros na maior economia do mundo se elevam é a de que os demais países acabam tendo que acompanhar para evitar um descolamento do câmbio, com os dólares voltando à sua origem. Então uma alta de juros nos Estados Unidos pode de maneira geral pressionar por juros mais elevados no mundo.


Voltando um pouco os olhos para o Brasil tivemos a prévia da inflação de abril em 1,73%, extremamente elevada, embora ainda abaixo do projetado pelo mercado. Com a inflação vindo forte nos dois últimos meses, mais o ruído gerado pelo conflito entre Rússia e Ucrânia e nosso próprio processo eleitoral é difícil prever até onde a nossa taxa de juros também pode chegar. O mercado tem visto algo em torno de 13,25% na Selic até o fim do ano, mas esse cenário depende fortemente de um alívio na alta de preço das commodities, em particular da energia e alimentos e da sinalização da política fiscal pelos nossos principais candidatos ao cargo presidencial.


Em resumo, abril sintetizou muito do que se espera para 2022: um cenário volátil e desafiador para as autoridades monetárias. A pergunta que deve estar tirando o sono dos presidentes dos bancos centrais é sobre o quanto os juros vão ter que subir para segurar a alta nos preços sem gerar uma recessão com resíduos de inflação pelo lado dos custos, a tão indesejada estagflação (estagnação econômica com alta inflacionária).


(*) Cristian Rafael Pelizza é mestre e doutor em Economia Aplicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), graduado em Economia pela Unochapecó e atualmente é economista e Head das áreas de Renda Fixa e Fundos de Investimento na Nippur Finance. Ele é professor de economia, com ênfase em Econometria, Microeconomia e Mercado Financeiro na Unochapecó.


Saiba mais acesse: [https://www.nippur.com.br/].


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