Centro de Curitiba vive boom de cafeterias; novos negócios crescem 23%
14/09/2026

Café especial, com nome de personagem de novela, coreano, de torrefação própria, sozinho ou acompanhado de comidinhas. Impulsionadas por um mercado que cresce entre 15% e 20% ao ano, as cafeterias ganham espaço nas ruas e praças do Centro de Curitiba. São cerca de 1.003 estabelecimentos desse tipo no Centro — incluindo casas de chá e de sucos —, segundo levantamento da Secretaria de Planejamento, Finanças e Orçamento.
De janeiro a agosto, foram abertos 662 novos espaços, 127 a mais (23,5%) do que no mesmo período do ano passado. Os estabelecimentos vão de formatos de “pague e leve” a espaços pensados para quem passa horas diante do notebook, encontra amigos ou simplesmente faz uma pausa no meio do dia.
Pós-pandemia
O boom de cafeterias começou no pós-pandemia e ganhou fôlego no último ano, principalmente como reflexo da revitalização da região promovida pelo programa Curitiba De Volta ao Centro, com novos investimentos e redução da burocracia.
Do grão à xícara
Na Rua São Francisco, a Royalty Café nasceu a partir de um negócio de torrefação de cafés especiais, aberto pelos sócios Zeca Dominico e Daniel Munari, ambos com larga experiência no ramo.
A torrefação foi fundada em janeiro de 2020, apenas três meses antes do início da pandemia. “Foi meio assustador, mas conseguimos vender online para o consumidor final, já que as cafeterias estavam fechadas”, diz Munari.
O negócio evoluiu com a abertura da cafeteria, que funciona junto à torrefação. O espaço, que além do café oferece gastronomia e coquetelaria, acaba de dobrar de tamanho ao incorporar uma área vizinha, onde antes funcionava um restaurante.
“Durante a semana, o público é mais de quem trabalha ou mora por aqui. Mas, no fim de semana, vem gente de todas as partes da cidade. São pessoas que vêm para conferir o nosso café e o nosso ambiente”, diz Zeca Dominico.
Para Munari, a capacidade de se reinventar é parte essencial do negócio. “A nossa aposta é na permanente inovação. Não dá para se acomodar. Por isso, temos o que chamo de ‘cozinha inquieta’, sempre em busca de novidades”, afirma.
A experiência começa também nos bastidores. Uma vez por mês, o Royalty promove um evento de torrefação aberta, com degustação gratuita. A iniciativa aproxima o público do processo de produção e, ao mesmo tempo, ajuda a conquistar e fidelizar clientes.
Café com novela
A paixão pelas novelas foi o ponto de partida para o Cafézinho, Dona Helena?, que abriu há pouco menos de um ano na Rua Saldanha Marinho. Decorado com capas de discos de trilhas sonoras de novelas, o espaço tem nome inspirado nas Helenas do autor de novelas Manoel Carlos. Das 17 novelas escritas por ele, nove tinham uma protagonista chamada Helena.
“As Helenas das novelas sempre tinham o horário do cafezinho. Esse costume até virou meme, quando a personagem cancelava a agenda e ia tomar um café”, comenta Renata Gamboa Almeida, proprietária do café.
Os cafés do cardápio levam nomes de personagens de novelas do autor. Além do cardápio fixo, há um menu sazonal, que homenageia uma novela diferente por vez.
“Todo mundo na família adora novela. Meu avô, de São Paulo, só marcava compromisso depois do horário da novela e depois passou a carregar uma televisão portátil para não perder nenhum capítulo quando se deslocava para algum lugar, já que o trânsito da capital paulista é complicado”, explica Renata.
Segundo ela, a ideia sempre foi abrir um endereço no Centro, por estar perto da região histórica, pelo comércio e serviços ativos e também para atender os moradores da região.
“Sempre quisemos um endereço no Centro e tem dado muito certo. Nós produzimos doces e salgados aqui mesmo no café, o que faz muita diferença. Tem muita gente que está passando na rua e não resiste ao cheiro do bolo assado na hora, do açúcar transformado em caramelo”, comenta.
Manana
Inaugurado em 2021, o Manana é um reduto conhecido na Rua Desembargador Ermelino de Leão. Fundado pela designer Dora Suh e pelo barista Vitor Coelho, que se conheceram trabalhando em um café, o local tem nome inspirado nas galactomananas, polissacarídeos (açúcares complexos) presentes nos grãos de café.
O Manana surgiu de uma torrefação própria, que funciona em um espaço ao lado da cafeteria. O grão que é torrado ali vai para a xícara dos clientes e também abastece outras cafeterias. O crescimento levou os sócios a abrir uma outra unidade no Bigorrilho, que concentra a produção de comidinhas e do cardápio vegano.
No Centro, segundo Dora, o público é formado por pessoas de todas as idades e perfis. São pessoas que moram ou trabalham nas proximidades, além de quem passa pela região e entra para conhecer o ambiente e provar um café.
“Temos um público fiel, que eu chamo carinhosamente de nosso elenco fixo, mas sempre tem cliente novo chegando. O Centro tem essa característica, porque sempre tem alguém que precisa vir para a região. E esse fluxo de pessoas no Centro vem aumentando”, diz Dora.
A revitalização da região tem contribuído para esse movimento. A requalificação da Rua Desembargador Ermelino de Leão, como parte das intervenções do Curitiba De Volta ao Centro, e a inauguração da casa de shows Cine Lido, no lugar que abrigou o histórico cinema de mesmo nome, já provocaram mudanças na dinâmica da região.
“Nos dias de show, estendemos nosso horário de fechamento de 18h para 20h para atender o público antes dos espetáculos”, diz Dora.
O tigre e o pássaro
Na esteira do sucesso das bandas de K-pop e das séries de dorama, Curitiba ganhou seu primeiro café coreano há pouco mais de dois meses.
O Hozak abriu as portas na Praça Osório com o objetivo de aproximar os curitibanos da gastronomia e das tradições coreanas — a começar pelo nome.
“Hozak é uma pintura tradicional coreana que representa um tigre, símbolo de coragem, e um pássaro, que traz boas notícias”, explica a proprietária Yoon Su Ki, coreana que mora há 15 anos em Curitiba.
“No símbolo do café coloquei uma araucária para representar Curitiba e a união das duas culturas”, conta.
A iniciativa de abrir o café veio da experiência de Yoon no restaurante dos pais, que fundaram, há oito anos, um restaurante coreano também na Praça Osório. Bianca, mãe de Yoon, ajuda no café.
Com decoração que remete à Coreia do Sul, como elementos que fazem referência às cinco montanhas sagradas e biombos que, na tradição, ficam posicionados atrás do assento do rei, o espaço oferece um cardápio tradicional coreano.
Entre as opções estão o yagwa, conhecido como o doce do rei — por levar arroz, ingrediente que historicamente era privilégio do monarca, além de canela e gengibre —, e o yuja espresso, preparado com café espresso, água com gás e purê de yuzu, fruta que lembra uma mistura de limão e tangerina.
Foto: Hully Paiva/SECOM







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