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Brasil precisa escolher onde competir na cadeia global de minerais críticos, diz especialista

há 56 minutos
5 min de leitura

30/09/2026


O Brasil não precisa tentar dominar todas as etapas das cadeias de minerais críticos para transformar sua riqueza geológica em indústria, mas terá de escolher onde possui condições de competir, atrair capital e desenvolver tecnologia. A avaliação é de Otavio Carvalheira, conselheiro e sênior advisor em Mineração, Metais e Minerais Críticos, que defendeu uma estratégia de industrialização baseada em escolhas de longo prazo e na integração do país às cadeias globais.


Durante a palestra "O Brasil e a Nova Economia - o papel estratégico dos minerais críticos", no evento Minerais Críticos - Agenda 2030, promovido pela Associação de Minerais Críticos (AMC), realizado nesta quarta-feira (30), em São Paulo, Carvalheira afirmou que a corrida internacional por esses recursos abre uma janela de oportunidade para o Brasil, mas advertiu que outros países também estão se movimentando e o capital possui alternativas.


" O Brasil precisa e faz parte de cadeias internacionais. E a gente precisa dessa conexão global. Precisamos fazer escolhas", afirmou.


Para Carvalheira, o país pode aprender com experiências internacionais sem necessariamente reproduzir modelos adotados por outras economias. Ao citar a China, destacou principalmente a capacidade de execução, o investimento em inovação e a construção de estratégias de longo prazo.

O desafio, segundo ele, é aproveitar a atual janela de oportunidade antes que outros países ocupem os espaços disponíveis nas novas cadeias.


" Os países estão se mexendo", afirmou, ressaltando que o Brasil possui vantagens competitivas, mas disputa investimentos com outras jurisdições. "Nós precisamos trazer esses recursos e fazer com que esse desenvolvimento traga prosperidade para o nosso povo."


Alumínio mostra que ter recursos não é suficiente

Carvalheira recorreu à trajetória da indústria brasileira do alumínio para mostrar que disponibilidade mineral, isoladamente, não assegura competitividade industrial.


Segundo ele, a construção dessa indústria resultou de uma visão de longo prazo que permitiu ao país desenvolver uma cadeia integrada, reunindo diferentes etapas da produção.


" De fato, não construímos só uma mina", afirmou, ao lembrar que a estruturação da cadeia envolveu mineração, infraestrutura, transformação e reciclagem.


Essa posição, entretanto, não impediu que o país posteriormente perdesse competitividade. Carvalheira lembrou que a produção brasileira de alumínio primário chegou a cerca de 1,6 milhão a 1,7 milhão de toneladas em 2008, mas depois caiu para menos da metade daquele patamar. Entre os fatores apontados pelo executivo está a energia, elemento decisivo para uma indústria eletrointensiva.


A retração chegou ao ponto, segundo ele, de obrigar o Brasil a importar alumínio primário para abastecer a própria cadeia de produtos semimanufaturados. Posteriormente, parte da capacidade industrial foi retomada.


Para Carvalheira, a experiência deixa uma lição diretamente aplicável à atual corrida pelos minerais críticos.


" Nós estamos falando não de um desenvolvimento para essa geração, [mas] para várias gerações que vêm à frente. Nossos recursos minerais são centenários", afirmou.


Celeridade não significa reduzir exigências ambientais


Entre as condições necessárias para transformar recursos minerais em investimentos, Carvalheira destacou a necessidade de maior previsibilidade nos processos de aprovação dos projetos.


Ele fez, porém, uma distinção entre acelerar procedimentos e reduzir exigências socioambientais.


" Quando eu falo de celeridade, eu quero deixar muito claro: celeridade não significa queimar etapas [nem] baixar o nível de exigência socioambiental ", afirmou.


Segundo Carvalheira, celeridade significa estabelecer processos claros, com tempos e prazos definidos, permitindo que empresas e investidores consigam planejar seus investimentos.


" É impossível -- e eu tenho experiências em que já vi dez anos para obtenção de uma licença prévia. Isso é absolutamente impraticável em qualquer ambiente", disse.


Carvalheira avaliou positivamente a possibilidade de projetos considerados estratégicos receberem prioridade, mas ponderou que a questão central será como esses mecanismos serão implementados na prática. Foto Minera Brasil


Cinco pilares para transformar potencial mineral em indústria

Ao estruturar sua visão para a nova economia dos minerais críticos, Carvalheira apontou cinco pilares necessários para o avanço do Brasil: papel do Estado e segurança jurídica; tecnologia e indústria; capital; sustentabilidade; e conexão global.


No primeiro deles, defendeu que o Estado ofereça segurança jurídica e condições que conciliem a proteção dos interesses estratégicos brasileiros com um ambiente capaz de atrair investimentos.


" O Estado precisa também oferecer essa condição de celeridade e segurança jurídica para que os investidores acreditem e continuem acreditando no nosso país", afirmou.


No campo tecnológico, Carvalheira defendeu maior aproximação entre indústria e universidades e a recuperação de competências que o Brasil já desenvolveu em diferentes segmentos minerais.


" É hora de recuperar, é hora de investir nas universidades, em parcerias", afirmou.


Ele também chamou atenção para a necessidade de tornar a mineração novamente atraente para as novas gerações e ampliar a formação de profissionais para a indústria.


Capital das juniors ainda vem de fora do Brasil


O financiamento apareceu como outro gargalo.

Carvalheira observou que grande parte das empresas juniors que atuam no país captaram recursos no exterior. Para ele, isso demonstra, de um lado, que os projetos brasileiros conseguem despertar interesse internacional e, de outro, evidencia a necessidade de desenvolver mecanismos para aproximar o mercado de capitais brasileiro da mineração.


A proposta é atrair também recursos de investidores brasileiros para financiar o desenvolvimento dos projetos minerais e ampliar a participação doméstica na construção dessas novas cadeias.


A questão ganha importância sobretudo nas etapas iniciais de pesquisa e desenvolvimento, quando empresas juniors ainda enfrentam o chamado "vale do risco", período em que os projetos demandam capital antes de alcançar a fase operacional. Carvalheira defendeu mecanismos de investimento e garantia capazes de ajudar essas companhias a atravessar essa etapa.


Sustentabilidade precisa acompanhar desenvolvimento regional

A sustentabilidade foi apresentada como outro elemento indispensável da estratégia.


Com base em sua experiência profissional na Amazônia, Carvalheira afirmou ter acompanhado os efeitos econômicos e sociais da mineração em regiões distantes dos grandes centros e defendeu um modelo no qual os projetos sejam desenvolvidos com participação das comunidades e compartilhamento de resultados.


" Poder presenciar e ver o progresso, a evolução das pessoas e das famílias nas regiões onde uma mineração responsável é feita, com participação das pessoas e compartilhando resultados, sendo um bom vizinho, é transformador", afirmou.


" O Brasil precisa e faz parte de cadeias internacionais"


No último pilar, Carvalheira contestou a ideia de que o Brasil deva buscar autossuficiência integral em todas as etapas dos minerais críticos.

" Esse mundo não existe e acho que nunca existiu no passado. Países que fizeram isso foram claramente deixados para trás. O Brasil precisa e faz parte de cadeias internacionais ", afirmou.


Para ele, o país possui uma vantagem ao manter relações econômicas e comerciais com diferentes parceiros e deveria preservar essa capacidade.

" Precisamos fazer escolhas. Eu acho que nós temos o privilégio e o histórico de poder negociar e tratar com vários países do mundo e isso precisa ser mantido", disse.


Carvalheira também defendeu parcerias nacionais e internacionais para reduzir a concentração das cadeias de minerais críticos e diminuir a dependência em relação à China. Para ele, porém, a resposta não está na busca de independência absoluta, mas na diversificação das cadeias e na construção de alianças.


" Isso exige persistência, exige disciplina e acompanhamento sistemático. Espero que a gente possa, em alguns anos, estar aqui celebrando a realização desse potencial, desde o minério até o produto", afirmou.


Sobre a Agenda 2030


Promovido pela Associação de Minerais Críticos (AMC), o Minerais Críticos - Agenda 2030 reúne em São Paulo representantes do setor mineral, governo, instituições de pesquisa e desenvolvimento, entidades setoriais, empresas e mercado para discutir os próximos passos da agenda brasileira de minerais críticos e estratégicos.


O encontro tem como pano de fundo a implementação da nova política brasileira para minerais críticos e o desafio de transformar o potencial geológico do país em investimento, produção mineral, processamento e novas etapas industriais. Entre os temas que atravessam os debates estão financiamento, segurança jurídica, conhecimento geológico, tecnologia, formação profissional, sustentabilidade e inserção do Brasil nas cadeias internacionais.

 

 

Créditos: Estadão Conteúdo


 
 
 

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