A Arte da rivalidade, duelo de egos na história da arte moderna | Notícias do Brasil e do Mundo Hoje | Curitiba | Jornale

A Arte da rivalidade, duelo de egos na história da arte moderna

01/11/2017

Em "A Arte da rivalidade", o crítico de arte australiano Sebastian Smee disseca a vida pessoal, a amizade, influência mútua e briga de egos de grandes artistas.

 

"Interior" (O estupro), de Edgar Degas - Crédito: divulgação 

 

Amizades da história da arte moderna foram muito importantes para o trabalho de grandes artistas, ainda que a convivência nem sempre fosse um mar de rosas e a rivalidade e briga de egos muitas vezes ganhasse o protagonismo.   

Sobre isso discorre de maneira brilhante o livro "A Arte da Rivalidade" (328 páginas, R$ 69,90, editora Zahar), assinado pelo crítico de arte australiano Sebastian Smee. O objetivo da obra é mostrar como a convivência entre artistas direcionou o caminho da arte até aqui. 

Sim, por mais isoladas que sejam as pessoas, sempre existe uma história de vida, um convívio com um mundo real ou imaginário; daí a importância de conhecer suas biografias para entender seus trabalhos.

 

Francis Bacon (1909-1992), o fascinante pintor irlandês das figuras humanas hediondas, foi amigo, colega de profissão e contemporâneo do também pintor alemão Lucian Freud (1922-2011).

 

Ao contrário do primeiro, mais conhecido do público, o segundo só costuma ser lembrado pelo sobrenome famoso - é neto do psicanalista Sigmund Freud. Talvez essa diferença tenha despertado rivalidade, apesar da amizade e troca de conhecimento.

Mas não fosse pela convivência com Freud, inconfundível pintor de um retrato das pessoas - e não parecido com as pessoas -, Bacon não chegaria a se interessar pelo desenho, em seguida pelo estudo da fotografia, e consequentemente da sua interpretação facial da expressão humana, demasiado humana - por vezes monstruosa, bem sabemos.

 

Além de Bacon e Freud, Smee se aprofunda nas relações íntimas entre Édouard Manet (1832-1883) e Edgard Degas (1834-1917), Henri Matisse (1869-1954) e Pablo Picasso (1881-1973), e Jackson Pollock (1912-1956) e Willem de Kooning (1904-1997).

O retrato também esteve entre Manet e Degas. A pintura "Monsieur e Madame Édouard Manet" (1868-69), assinada por Degas e presenteada ao amigo, mostra Manet deitado displiscentemente no sofá, com um olhar aborrecido, enquanto sua mulher, Suzanne, aparece com o rosto recortado, de perfil. 

Na verdade, o quadro foi cortado por Manet bem no rosto de Suzanne. Ali estava o ponto fraco do sociável Manet que Degas, como diz o autor, ansiava por descobrir. Não se sabe como era o quadro original.

 

Há quem diga que provavelmente Suzanne estava ao piano, pois o casal costumava receber convidados em casa. Mas o fato é que Degas, aborrecido ao ver sua tela violada, a levou embora e restaurou.

Eternizado como gênio impressionista, Manet sofreu duras críticas pelas doses de realismo cruas que aplicava, tendo sido chamado de 'tosco'. Mas esse estilo inacabado e espontâneo não foi compreendido na época, e influenciou o pintor que até então não saía das linhas e das formas acabadas, Degas. Assim surgiram suas eternas bailarinas sem rostos.

Matisse chocou o mundo e chegou a ser ridicularizado por seus pares mais jovens pela obra "Mulher com chapéu" (1905), um retrato melancólico de sua esposa, Amélie. Ali nasceu o fauvismo, que vem de ' 'fauves' (selvagens), pois não seguia o impressionismo. 

O retrato é um esguichar desordenado de cores na tela que forma uma mulher de rosto duro, porém triste, segurando um leque e mais uma vanguarda que enfrenta o comodismo vigente. Em comum com Picasso, o cubismo, pelo qual também foi motivo de chacota.

Há um trecho do livro, do poeta e jornalista norte-americano Gelett Burgess, que resume uma relação não propriamente pautada na amizade, mas nos amigos em comum. Matisse dizia que para ele o triângulo equilátero é símbolo do absoluto, e que se alguém conseguisse infundir essa característica absoluta na pintura, seria uma obra de arte.

 "Ao que o pequeno aloprado Picasso, afiado como um açoite, espirituoso como o diabo, louco varrido, corre para seu ateliê e concebe uma enorme mulher nua composta inteiramente de triângulos ('Les Demoiselles d'Avignon'), e a apresenta como um triunfo!"

 

Havia também uma pressão para que a rivalidade existisse. Isso instigava as pessoas, a mídia, o público. Era a cereja do bolo. Pollock e De Kooning, por exemplo, não eram rivais mas acabaram sendo, diante da pressão de produtores e marchands. 

Tendo o alcoolismo em comum, os dois viviam dizendo um ao outro: "você é o maior pintor dos Estados Unidos". Independentemente de fama, o autor acredita que "todo sucesso realmente memorável é obtido apesar de uma desvantagem". Ainda que a desvantagem não signifique necessariamente deficiência, mas sim habilidade acima do normal, segundo Smee.

 

Pollock tinha problemas com álcool que muitas vezes lhe causou limitações criativas. Foi sua personalidade intempestiva, imprevisível, violenta até, que o fez ser pioneiro em um estilo expressionista abstrato único de respingar tinta em telas enormes, deixando-a escorrer ou espalhando com vara, escova, seringa... Já De Kooning era totalmente oposto: certinho demais, precisava da influência do amigo-rival para encontrar originalidade.

 

Serviço:

"A Arte da Rivalidade"

Editora Zahar; 328 páginas

Preço médio: R$ 69,90

 

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