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Festival de Teatro de Rio Preto apresenta 23 peças

02/07/2017

 

De 6 a 15 de julho de 2017, a Prefeitura de São José do Rio Preto e o Sesc São Paulo realizam o FIT – Festival Internacional de Teatro de Rio Preto, que chega a sua 17ª edição internacional e busca fazer um recorte do que de relevante acontece no mundo contemporâneo das artes cênicas nos âmbitos internacional nacional e local. A obra Suassuna – O Auto do Reino do Sol fará a abertura no dia 6 de julho, às 19h30 no Anfiteatro Nelson Castro, um teatro de arena a céu aberto às margens da Represa Municipal.
Calcado na linguagem popular, com músicas compostas por Chico César – que assina a direção musical com Alfredo Del Penho e Beto Lemos – e figurinos que remetem ao universo clownesco, o musical é uma grande homenagem ao escritor Ariano Suassuna. A obra tem texto de Braulio Tavares e direção geral de Luiz Carlos Vasconcelos.
A edição de 2017 traz à cena 23 montagens, dentre nacionais e internacionais, que farão 50 sessões em 14 diferentes locais da cidade e arredores. As 20 companhias participantes vão reunir em Rio Preto cerca de 117 atores e encenadores nos 10 dias de evento. Dos 17.366 ingressos disponíveis, mais de 60% são gratuitos e o restante a preços bastante populares, de 3 a 10 reais.
Com o objetivo de contemplar países e continentes diferentes, espetáculos de Portugal, Polônia, Colômbia e África do Sul e mais 19 produções brasileiras – para público adulto e de todas as idades – estarão espalhados pela cidade de Rio Preto. Assim será esta edição, que levará apresentações para seis locais fechados (Teatro Municipal Humberto Sinibaldi, Teatro Municipal Paulo Moura Teatro, Teatro do Sesc, Ginásio do Sesc, Teatro do SESI e Auditório da Swift) e para mais oito espaços entre ruas e praças (Anfiteatro Nelson Castro- Represa, parada de ônibus em frente à Swift, CEU das Artes – bairro Nova Esperança, Praça Frei Duarte- final da Av. Brasilusa, Praça Rui Barbosa- Centro, Av. Philadelpho Gouvea Neto com Antonio Marques Santos, Praça Dom José Marcondes – Centro), além das Praças dos Distritos de Talhado e Schmitt.
Espetáculos internacionais
Dos internacionais programados, um dos destaques é a estreia mundial do espetáculo As Criadas, obra que está em processo de criação pelo diretor polonês Radosław Rychcik, um expoente do teatro polonês contemporâneo, com um talentoso trio de atrizes brasileiras: Bete Coelho, Denise Assunção e Magali Biff. Radosław Rychcik montou a clássica peça de Jean Genet como forma de discutir os problemas sociais e humanos que o texto aborda. Nascido em 1981 em Ciechanów, Rychcik é um jovem diretor cuja reputação internacional alcançou grande projeção em apenas alguns anos. Originalmente estudante de literatura polonesa na Universidade de Varsóvia, Rychcik mudou de curso depois de experimentar o teatro de vanguarda polaco na faculdade. Ele continuou a estudar dirigir e trabalhou com pessoas como Krystian Lupa, um dos mais importantes diretores da Polônia. Usando estruturas não-lineares, coreografias precisas, mensagens não-verbais, gestos, sinais e figuras retóricas, ele já criou uma linguagem original reconhecível na cena teatral internacional.
Em As Criadas, Radosław Rychcik voltará a trabalhar com Michał Lis e Piotr Lis da banda The Natural Born Chillers, profissionais capazes de criar uma atmosfera específica para suas peças, executada por músicos brasileiros. Hanna Maciąg, uma jovem videoartista polonesa, também figurinista e atriz, será responsável pelo cenário e figurinos.
Outro trabalho a ser destacado, situado entre a performance e a dança, é o And So You See (Então Você Vê…), de Robyn Orlin, da África do Sul. Nascida em Joanesburgo em 1955, Orlyn é uma coreógrafa controversa e provocadora, e tem trabalhado nos limites da performance, arte e dança nos últimos 20 anos. Suas obras são sempre políticas e relacionadas com o país onde nasceu, que comemorou em 2014 vinte anos de democracia, e isso a faz questionar, passadas essas duas décadas, sobre como estão situados, na atualidade, os assuntos que interessam ao seu trabalho, como o racismo, a homofobia , a liberdade, a identidade.
Em And So You See ela propôs uma colaboração com Albert Ibokwe Khoza – uma figura imponente que levanta questões sobre a mistura de gêneros – que pertence a uma geração mais jovem. Ambos têm algo em comum: vivenciam o teatro, a dança e a arte em geral como armas de memória, luta, consciência e mudança. Robyn Orlin usa diferentes mídias (texto, vídeo, artes plásticas) em seus espetáculos e sempre trata os assuntos com extravagância e humor.
De Portugal vem As Cidades Invisíveis, parceria do coletivo português Má-Criação com o dramaturgo brasileiro Alex Cassal. Em 2009, Paula Diogo começou a desenvolver a Má-Criação, uma associação cultural dedicada a projetos colaborativos de performance e teatro. A convite do Teatro Maria Matos, a atriz e os atores portugueses Alfredo Martins e Rafaela Jacinto, em conjunto com o dramaturgo e carioca, transformaram o livro de Ítalo Calvino num espetáculo teatral destinado ao público jovem. A partir da manipulação de objetos, os atores se deixam levar pelas correntes rumo a um destino que ainda não conhecem, relembram os nomes das 55 cidades descritas por Ítalo Calvino no seu livro As Cidades Invisíveis. Identificadas com nomes de mulheres, como se fossem pessoas, as cidades são protagonistas de histórias em que se confundem o real e o imaginário, o cotidiano e o impossível, construídas num território sem fronteiras – essas linhas que unem mas que também separam países, pessoas e culturas.
O coletivo colombiano Mapa Teatro, de Bogotá, apresenta Los Incontados – Un Tríptico, a terceira parte de um panorama da onda de violência que assola o país por mais de meio século. A primeira parte, “Los Santos Inocentes (2010)”, é uma celebração nas ruas de uma aldeia no Cauca Pacífico, onde homens mascarados, vestidos como mulheres e armados com chicotes são responsáveis por “dar Rejo” àqueles que se atrevem a sair. O segundo, “Discurso de un hombre decente” (2012), tem como espaço algum lugar na selva colombiana, onde um traficante de drogas ensaia um discurso sobre a legalização das drogas. “Los Incontados” (2014), a terceira parte, se passa na sala de uma casa de família, em que algumas crianças escutam, pelo rádio, a história da revolução. A montagem do espaço é feita para que se mantenha o suspense do desenrolar da história e o espectador descubra a evolução do texto.
Sobre o tríptico, embora as peças aconteçam em contextos diferentes, têm algo em comum: a violência. Os três espetáculos são resultado de uma rigorosa reflexão que o Mapa Teatro faz nesses seus 30 anos de trabalho. “É olhar para trás e ver que, na Colômbia, desde a segunda metade do século XX, há a presença de variadas formas de violência nas comunidades, e que a sociedade já se familiarizou com isso” explica o diretor Rolf Abderhalden.
Espetáculos nacionais
Do Brasil, companhias de São Paulo (SP), Salvador (BA), Fortaleza (CE), Rio de Janeiro (RJ), Natal (RN), Curitiba (PR), Mossoró (RN) e Campo Grande (MS) mostram a diversidade da produção cênica nacional no FIT Rio Preto. Três obras da cidade formam a Cena Rio Preto: Crise de Gente, da Cia. Hecatombe, Terra Abaixo, Rio Acima, da Cia. Cênica e O Pequeno Príncipe – O Musical, do Grupo Lígia Aydar.
Conseguir apresentar ao público as três partes do projeto Abnegação é um dos pontos altos da programação do FIT em 2017. Abnegação, Abnegação II – O Começo do Fim e Abnegação III – Restos, escritos por Alexandre Dal Farra e levados à cena pelo grupo Tablado de Arruar. É uma trilogia que dialoga com o cenário contemporâneo e levam para o palco os intrincados desdobramentos do conflito entre política e ideologia. A partir de reinvenções ficcionais de notícias do cenário político brasileiro – conhecidas pelo público – interessou ao dramaturgo os bastidores do tema. Entender o significado do PT no auge de seu governo, o significado da chegada da esquerda no poder e a adesão do partido às estruturas estabilizadas foram o estopim para a pesquisa que envolveu entender o sistema de uma forma mais ampla. Assim nasceu o primeiro espetáculo, Abnegação, que pretendia bastar-se, mas dada a profundidade da questão, Dal Farra continuou a se debruçar mais sobre o tema e criou posteriormente Abnegação II – O Começo do Fim e Abnegação III – Restos, este último estreado em 2016, quando a companhia comemorou 15 anos de estrada.
Rio de Janeiro, Natal e Curitiba comparecem ao FIT, respectivamente com os espetáculos Gritos, do Dos à Deux, Jacy, do Grupo Carmin e PROJETO bRASIL, da companhia brasileira de teatro. A montagem carioca narra três histórias, que abordam temas ásperos como o racismo, a homofobia e o menosprezo por pessoas consideradas invisíveis. Sem uma única palavra, a peça apresenta um forte posicionamento sobre assuntos urgentes em nossa sociedade. Concebida pela companhia franco-brasileira Dos à Deux (radicada há quase duas décadas na França), a peça conta com dramaturgia, direção e atuação de André Curti e Artur Luanda Ribeiro, que trabalham há anos com teatro gestual. Em cena, a dupla usa bonecos em proporção humana. A ideia é criar um universo onírico e inquietante, estilizado, em que os bonecos (ou partes deles) se juntam aos corpos dos atores.
Jacy foi uma mulher que se estivesse viva, teria 97 anos hoje. Nascida em Natal, morou durante anos no Rio de Janeiro onde foi amante de um militar americano, e voltou para as terras potiguares, onde morreu em 2010, esquecida. Pois foi a partir do encontro de uma frasqueira sua contendo fotos e objetos pessoais que o Grupo Carmin criou o espetáculo Jacy, homônimo ao nome da personagem. Em cena, é traçado um paralelo entre a vida dela e a história da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. O espetáculo é construído a partir dessa ligação, ora realística, ora fictícia, do cruzamento das histórias vividas por ela e a trajetória política daquele estado.
Da capital paranaense vem o espetáculo PROJETO bRASIL, com direção de Marcio Abreu. Resultado de dois anos de pesquisas – iniciadas em 2013, ano em que as manifestações se apossaram das ruas das grandes cidades brasileiras – o intenso trabalho e viagens envolveu as cinco regiões brasileiras, e resultou em um conjunto de performances curtas criadas a partir da reflexão dos artistas sobre o país que encontraram durante essas viagens. Sobre as cenas, independentes entre si, o diretor explica que “É um conjunto bem heterogêneo que inclui palavra, performance, música, teatro. É mais sensorial do que narrativo; convoca, implica, provoca. (…) [queríamos] falar sem falar expressamente, tratar de outras coisas para tratar do Brasil. Esta outra dimensão de trabalho é um reflexo também da impossibilidade de falar sobre o país, num momento em que as coisas ainda estão acontecendo, numa velocidade muito grande”.
Blanche, produção paulistana do Centro de Pesquisa Teatral (CPT/Sesc) e o Grupo de Teatro Macunaíma, é dirigida por Antunes Filho e inspirada na peça “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams. O espetáculo é falado em fonemol, uma língua imaginária usada pelos atores como símbolos do inconsciente, não da razão. Como o próprio título da montagem aponta, é na relação irmã e cunhado que está calcado o eixo dramático dessa montagem que conta a história das descendentes de uma decadente família tradicional do Sul dos Estados Unidos, as irmãs Stella e Blanche Dubois. Após perder a antiga propriedade familiar, Blanche vai ao encontro da irmã de quem está afastada há muitos anos. A convivência de ambas somada à presença do cunhado polonês Stanley Kowalski, reabre feridas e impõe alteridades desesperadoras no plano da dignidade humana, da qual o machismo arraigado é apenas uma face.
Uma produção conjunta, de grupos residentes em cidades diferentes. Assim é Programa Pentesiléia – Treinamento para a batalha final, que junta a Cia. de Teatro Balagan, de São Paulo e Caseiras Produções, do Rio de Janeiro. O projeto traz para o Brasil a obra da dramaturga italiana Lina Prosa, saudada como um dos principais nomes da dramaturgia mundial na atualidade e celebra os 80 anos de vida e quase 60 de carreira da atriz Maria Esmeralda Forte que, ao lado do ator Antonio Salvador, conduz a narrativa. Maria Esmeralda, nascida no Pará, no seio da Floresta Amazônica, é a atriz que dá vida à Pentesiléia: com seu corpo repleto de marcas, de outros corpos, de muitas narrativas, de muitos teatros, aos 80 anos, interpreta a rainha das Amazonas em mais um encontro com Aquiles, o herói grego, para a batalha final.

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