Zak Brown e o renascimento da McLaren

04/05/2021


Americano mudou a história da equipe fundada pelo neozelandês Bruce McLaren



Uma equipe histórica, dona de oito títulos do Mundial de Construtores e de 12 de Pilotos. Palco de conquistas inesquecíveis de nomes históricos para a Fórmula 1 como Emerson Fittipaldi, James Hunt, Niki Lauda, Alain Prost, Ayrton Senna, Mika Hakkinen e Lewis Hamilton.


Ao contrário do que era esperado, a McLaren chegou ao fundo do poço nos três anos em que retomou a parceria histórica (e vencedora) com a Honda. As temporadas de 2015, 2016 e 2017 foram tenebrosas: 0 vitórias, 0 pódios e apenas 133 pontos. Pior: com fuga de patrocinadores e dívidas crescendo. Parecia a decadência chegando.


A outrora gigante McLaren estava se tornando apenas uma equipe independente em busca apenas da sobrevivência na Fórmula 1. Parecia.


A chegada de um americano nascido em Los Angeles, na Califórnia, mudou a história da equipe fundada pelo neozelandês Bruce McLaren em 1963. Um ex-piloto, apaixonado pelo passado do automobilismo, colecionador de carros clássicos e sócio-fundador da United Autosports desde 2009, time de muito sucesso no endurance. Um racer. Zak Brown, de 47 anos, entrou na McLaren em novembro de 2016 como Diretor Executivo do McLaren Technology Group. Pouco mais de um ano depois, em abril de 2018, foi promovido a CEO da McLaren Racing, a divisão responsável pelo automobilismo da tradicional marca inglesa.


Quando soube da notícia, confesso que achei que não daria certo. Afinal, nas duas passagens de Ron Dennis e na de Martin Whitmarsh pelo comando, a equipe tinha se tornado gigante. Para o bem e para o mal. A McLaren se acostumou com patrocínios multimilionários. Fora a empáfia e o distanciamento da realidade, simbolizados pelo suntuoso motorhome que a equipe levava para as corridas, o icônico Brand Centre, de três andares e com uma fachada toda espelhada. E os problemas do time começaram ao fim de 2012, com a saída de Lewis Hamilton rumo à Mercedes. Depois, no fim de 2013, a saída da Vodafone, multinacional do ramo da telefonia, como patrocinador principal. Desde então, a McLaren nunca mais conseguiu um title sponsor, aquela marca que paga milhões para dar nome à equipe.


Mesmo assim, não parecia uma situação ruim para a McLaren, mesmo com o fim da parceria com a Mercedes no fornecimento de motores. Afinal, no fim de 2013 foi anunciado o retorno do casamento vencedor com a Honda para a temporada 2015. Infelizmente foi um erro colossal. A necessidade de resultados urgentes da McLaren e a falta de experiência da montadora japonesa com os sistemas híbridos usados na Fórmula 1 atual foram os elementos para a tragédia. Três anos de fracassos, temperados a muitas reclamações da estrela Fernando Alonso, então líder da equipe. Quem não lembra do famoso rádio no GP do Japão de 2015, bem na casa da Honda? "GP2 engine. GP2. Argh!"


Ron Dennis foi tirado dos cargos de administração da equipe no fim de 2016. A equipe passou por uma transição sob o comando do alemão Jost Capito até Zak Brown assumir o cargo de CEO da McLaren no início de 2018. A grande questão era se o estilo mais despojado do dirigente americano funcionaria em uma equipe em crise e longe de seus melhores dias. A ideia era mudar a mentalidade de todos os que trabalhavam na equipe e tentar reerguer o negócio. Tudo isso agravado por um prejuízo milionário na divisão de carros de rua da McLaren.


A mudança de mentalidade começou pelos pilotos. Brown trocou Fernando Alonso (que foi muito importante na administração no ano de transição, o primeiro com os motores Renault) e Stoffel Vandoorne pelo novato Lando Norris e pelo espanhol Carlos Sainz, demitido da Renault ao fim de 2018. A aposta em uma dupla jovem rendeu frutos: logo no primeiro ano, quarto lugar no Mundial de Construtores. E no complicado 2020 pela pandemia da Covid-19, o terceiro, atrás apenas de Mercedes e RBR. Resultados alentadores depois de uma fase tão complicada. E investiu na contratação para a temporada 2021 do experiente australiano Daniel Ricciardo para a vaga de Sainz, de saída para a Ferrari.


A nova filosofia passou pela chefia da equipe. Brown trouxe o alemão Andreas Seidl, responsável pelo bem-sucedido programa da Porsche na LMP1 do Mundial de Endurance (WEC), para a função. Com uma mentalidade moderna, ele conseguiu evoluir todas as áreas da equipe inglesa. A engenharia, em especial, deu show para a temporada 2021, com a adaptação do chassi do ano passado para os motores Mercedes, que voltaram aos carros da McLaren no lugar dos Renault.


Mas o mais importante, talvez, tenha sido a mudança de mentalidade na busca por patrocinadores. A McLaren, hoje, tem nada menos que 32 patrocinadores. Nenhum deles paga para ser o title sponsor, mas todos ganham retorno com os resultados da equipe. Um pensamento bem americano, que nunca tinha funcionado na europeia Fórmula 1. Brown fez essa estratégia dar certo na maior categoria do automobilismo, com parceiros gigantes como a Coca-Cola, a British American Tobacco, a Gulf e a Unilever. A turma das redes sociais até brinca: "Respirou? O Zak Brown arrumou um patrocinador". Está dando certo.


Fato é que em um mundo sem tanta disponibilidade de capital vindo de patrocinadores e vivendo sucessivas crises econômicas, não dá para ficar esperando cifras como as do início dos anos 2000. Salvo raríssimas exceções, não vai mais acontecer. E Zak Brown talvez tenha sido o primeiro a detectar essa situação. A estratégia de parceiros menores mas consistentes ajudou a reconstruir a imagem da McLaren. Hoje, a equipe inglesa lidera a briga pela terceira força da Fórmula 1 à frente de equipes oficiais de montadoras como a Ferrari, a Alpine, a Aston Martin e a Alfa Romeo. Mais importante: evitou que a McLaren tivesse o mesmo triste destino da Williams, que viu a família vender sua participação no time para o fundo americano Dorilton Capital depois de anos de fracassos.


A McLaren participou da Fórmula Indy entre 1970 e 1979, com relativos bons resultados. Foram 18 vitórias neste período, todas conquistadas pelo texano Johnny Rutherford. A equipe inglesa só voltaria a ter relações com a categoria quase 40 anos depois. Em 2017, por iniciativa de Zak Brown, Fernando Alonso foi inscrito nas 500 Milhas de Indianápolis em uma inscrição conjunta com a Andretti Autosport, de Michael Andretti. O espanhol chegou a liderar a corrida, mas abandonou na 179ª volta após a quebra no motor Honda. Em 2019, repetiu a dose na Indy 500, desta vez em conjunto com a inglesa Carlin, o que se revelaria um erro. Desta vez, Alonso não conseguiu classificar seu Dallara-Chevrolet.

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