Votos pelo correios nos EUA podem atrasar resultado das eleições

03/11/2020


Trump já ameaçou, mais de uma vez, judicializar resultados



A constante ameaça do republicano Donald Trump de não reconhecer uma possível vitória do democrata Joe Biden e de entrar na justiça contra os resultados das cédulas enviadas por via postal colocam em dúvida o que acontecerá após as urnas da costa oeste serem fechadas nesta terça-feira (3). Basicamente, se um dos candidatos não tiver uma vitória robusta , o resultado deve ser alvo de inúmeros questionamentos.


O atual presidente norte-americano acusa a modalidade, que foi ampliada por conta da pandemia para quase todos os estados, de ter um alto risco de fraude. No entanto, em uma pesquisa do Instituto Brennan Center for Justice, de 2017, mostrou que a possibilidade de fraude é de menos de 0,0009%.


Como não há uma lei eleitoral nacional sobre o tema, cada estado define as regras de contagem e envio de maneira diferente - o que deixa a situação ainda mais confusa por si só. E, por conta das constantes acusações de Trump, diversos foram os governadores de ambos os partidos que fizeram propagandas para garantir que é seguro votar através dessa modalidade.


Mas, qual o motivo da polêmica? Segundo o professor Marcio Coimbra, coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, a votação antecipada por correio é uma prática "característica do Partido Democrata".


"O voto antecipado em todas as eleições anteriores, sempre é um voto com tendência democrata. O republicano é mais preguiçoso, o republicano tende, às vezes, a não votar. [...] Então, o que você precisa fazer para ganhar, considerando que o republicano é mais preguiçoso? Você precisa mobilizar esse cara para votar. Todas as eleições em que você tem essa estratégia, onde os republicanos conseguem botar o seu militante na rua para votar, ele ganha", destaca Coimbra à ANSA.


Um outro ponto polêmico refere-se à demora esperada para a contagem dos votos. Enquanto alguns estados já iniciaram a contabilizá-los, outros só começam a contar a votação assim que as urnas forem fechadas nesta terça. Além disso, há estados em que serão permitidos a chegada das cédulas com votos até a próxima sexta-feira (6). Tudo isso coloca o resultado oficial da disputa sob incerteza porque não se sabe quanto tempo vai levar para a apuração.


Antes mesmo do "Election Day", os dois partidos já entraram com ações na Suprema Corte para ampliar a data de recebimento das cédulas: na Pensilvânia, vitória dos democratas com a ampliação do prazo; no Wisconsin, vitória dos republicanos com a determinação do encerramento em 3 de novembro.


Nesta segunda-feira (2), o chefe da Casa Branca voltou a dizer que se o resultado não for conhecido já na noite de terça-feira (madrugada no Brasil), ele vai recorrer à Suprema Corte.


Recentemente, Trump indicou a juíza conservadora Amy Barrett para compor o plenário, fazendo com que a máxima instância judicial dos EUA tenha seis juízes conservadores e apenas três liberais.


O professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, Pedro Brites, no entanto, não acredita que Trump vai tentar impugnar os resultados, mas pontua que "é crítico só o fato dele ter posto isso sob ameaça".


"Não tem como, independente do resultado, desconsiderar o quanto essas eleições marcaram um processo de polarização na sociedade americana. A gente viu isso de forma muito efetiva não só pelas manifestações [antirracismo] e pela criação de milícias armadas, principalmente de extrema-direita, mas também de milícias negras armadas. Principalmente as de extrema-direita têm ganhado força nos EUA e isso é um símbolo muito crítico da situação que vem acontecendo na sociedade americana. A declaração do Trump é sintoma desse processo, não só citou, mas ajudou a aumentar a crítica e a crescer essa fratura na sociedade americana", diz Brites à ANSA.


Segundo dados do US Elections Projects, mais de 99,6 milhões de norte-americanos votaram de maneira antecipada em 2020. Destes, 63,9 milhões foram votos por correios já recebidos pelos centros de votação e pouco mais de 28,2 cédulas estão em situação "pendente". Em números absolutos, os estados que mais registraram votos antecipados (pessoalmente e por correios) foram a Califórnia (12 milhões), o Texas (9,7 milhões) e a Flórida (8,9 milhões).

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