Luciana, a mãe que todo mundo deveria ter

04/05/2021


Professora conta às filhas sua experiência



Luciana Xavier, minha mãe, é uma mulher que desde muito menina já sabia o que queria para a vida. Ela trazia um sonho muito bonito no coração: inspirar as pessoas por meio da profissão que um dia exerceria: professora! As histórias que ela me conta até hoje me fazem pensar o quanto eu gostaria de ter sido sua melhor amiga na juventude.



Morando no bairro do Pilarzinho, em Curitiba (PR), ela teve uma infância um tanto difícil. Aos 9 anos perdeu o pai. Minha avó, Dona Terezinha, precisou cuidar dos filhos sozinha.



Luciana gostava muito de ler e estudar. Porém, diferente de mim, precisou abrir mão da escola quando jovem para focar no trabalho, pois sua mãe dizia que “isso” – estudo e carreira acadêmica – não era pra ela, pessoa simples. Assim, teve de parar de estudar na sétima série do ensino fundamental, com muita tristeza. Mas, no fundo, ela sabia que a vida, cedo ou tarde, ainda lhe abriria oportunidades.



Foi então que em 1995, aos seus 20 e poucos anos, começou a trabalhar em uma escola rural em Tijucas do Sul, no Paraná. Apesar de não ter formação pedagógica, assumiu uma turma multisseriada. A diretora, que muito gostava de seu trabalho, lhe propôs que continuasse morando ali e terminasse os estudos, pois a ajudaria a cursar Pedagogia para que ela pudesse progredir na carreira docente e, dessa forma, seguir dando aulas na região. Mas, no fim, mesmo querendo tanto permanecer ali, minha avó acabou por convencê-la a se mudar para Araucária. Com o passar do tempo ela se casou e teve filhos – minha irmã, eu e meu irmão.



Mas com os seus filhos ela fez diferente, sempre nos incentivou a estudar, a gostar de livros e da leitura. Ela me inspirava toda vez que a via lendo ou conversando sobre assuntos interessantes. Até hoje eu acho minha mãe incrível por isso. Sei que desde os 12 anos ela lia muito, ia dos livros mais excêntricos às HQs do Tex! Ela nos motivava muito e sempre nos dizia que poderíamos ser aquilo que quiséssemos, e que ninguém poderia nos tirar isso: “Os estudos são a chave para a liberdade e jamais alguém roubará isso de vocês”, eu ouvia ela dizer.



Em 2012, minha irmã Geisy estava terminando o ensino fundamental e minha mãe, empolgadíssima, fez uma promessa: como motivação, voltaria aos estudos para não deixar que nós a “ultrapassássemos”, e assim pudesse nos ajudar quando fosse preciso. Dito e feito. Ela se inscreveu para fazer o exame ENCEJA e, inteligente que era, conseguiu eliminar muitas matérias do fundamental, só restaram algumas para concluir no Ensino de Jovens e Adultos. Ela conta que quando estava no CEEBJA, uma professora a incentivou a eliminar também o ensino médio, e assim ela o fez.



Depois disso, em 2013 ela começou o curso de Ciências Sociais na PUC-PR, com uma bolsa Prouni de 100%. Mas, infelizmente precisou trancar a matrícula, pois logo minha irmã começou a cursar o ensino médio no colégio SESI e precisava da van para transporte – o custo era um investimento para a família. Tal circunstância a fez abrir mão dos estudos novamente. Hoje penso no quanto ela se preocupava com a gente e o quanto ela não queria que acontecesse conosco o que tinha ocorrido em sua própria vida.



Foi aí que no outro ENEM, em 2014, ela conseguiu bolsa de 100% para fazer o curso de Pedagogia na Uninter, no polo de Araucária (PR). Foi uma alegria lá em casa. E, assim, aquela jornada começou, e dessa vez não ia parar no meio do caminho. Foram anos bem difíceis. Lembro de dias em que Luciana precisou ir a pé até o polo porque não tinha dinheiro para a passagem e, mesmo com dores fortes na coluna, ela persistia. A mulher mais forte que já vi.



Nesse percurso, eu também entrei como bolsista no SESI e as coisas apertaram ainda mais. Os gastos com passagem e alimentação só aumentaram, mas ela sempre dava um jeito. Começou a trabalhar como babá, até conseguir um estágio na escola em que trabalha à época, em Curitiba. Nem preciso dizer que o pessoal da escola adorou a minha mãe (e como não?), e hoje ela é efetivada e se sente muito realizada com a conquista.



Como nós morávamos em Araucária na época em que começou a trabalhar nesta escola, por três anos ela precisou deslocar-se até Curitiba para dar aula. Eram duas horas e meia de ônibus todos os dias, ida e volta. Por três anos ela enfrentou essa rotina com dores na coluna, enfrentando frio e ônibus lotado, tudo pelo seu sonho. Em 2018 ela concluiu Pedagogia, fez o Enade e em 2019 conseguiu uma bolsa integral na pós-graduação em Metodologia do Ensino das Artes. O polo de Araucária ficou jubiloso ao ver que minha mãe tinha conseguido uma das melhores notas no Enade.



Aliás, foi em 2018, quando ela terminou o curso, que eu entrei na Uninter para fazer licenciatura em História. Consegui 100% de bolsa e ela ficou mega orgulhosa por eu estar seguindo seus passos. Devo me formar esse ano e posso dizer que seu incentivo muito me ajudou a persistir nessa trajetória.



Atualmente, minha mãe está pós-graduada e pretende iniciar o mestrado no ano que vem. Agora estamos morando em Curitiba, bem próximos à escola em que ela trabalha. Hoje ela consegue realizar o que sempre quis, indo a pé para o trabalho, e isso é uma vitória para nós.



Tenho um imenso orgulho pela mulher e ser humano que a Luciana é. O quanto suportou para fazer o que ama me dá todos os dias motivação para não desistir dos meus sonhos e projetos. Hoje ela inspira a todos que a conhecem e, acima de tudo, é meu exemplo de força e sucesso. Sua vida é uma mensagem que nos diz: “Não importa o quão longe possa parecer o seu objetivo, ou o quanto você poderá esperar para que ele se realize, siga em frente.” Hoje, aos 47 anos, minha mãe é a maior demonstração de que com persistência e paciência se vai longe. Tenho gratidão à vida por compartilhar isso junto com ela.

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