Jornalista indígena usa formação para defesa das comunidades tradicionais

Sandra Terena é a primeira jornalista indígena do Brasil, prêmio Jovem da Paz 2009 e foi homenageada na Abertura da Noite dos Museus em Portugal.

Os primeiros habitantes do Brasil, os povos indígenas, representam 305 etnias e uma população de 896 mil índios, de acordo com o IBGE. Destes, 36% migraram para os grandes centros. Uma das dificuldades é a interação com o mercado de trabalho. Não existem dados precisos sobre a inserção dos povos indígenas no mercado de trabalho, mas sem dúvida é o grande gargalo deste êxodo.

Indígena do povo Terena de uma aldeia fundada por seu avô há 102 anos, no interior de São Paulo, Sandra Terena – ou “Alieté”, como é chamada na aldeia se tornou a primeira jornalista indígena do Brasil em 2003.

É uma das principais vozes brasileiras na construção de políticas públicas direcionadas à defesa de direitos de comunidades tradicionais.

Nasceu em Curitiba porque seu pai foi a capital paranaense para servir o exército. Ela tem uma trajetória incomum dentro do cenário envolvendo a comunidade indígena no Brasil. Ela faz parte de uma minoria invisível para o poder público que conseguiu cursar uma Universidade, pós-graduação e conseguir aplicar o conhecimento para implementar, na prática, a busca pela melhor qualidade de vida de seu povo. Sandra é formada em Comunicação Social pela Universidade Positivo e tem pós-graduação em Comunicação Audiovisual pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Escolheu a profissão como meio de defesa da comunidade indígena. Presidente da ONG Aldeia Brasil há treze anos, Sandra utilizou seu aprendizado para produzir, com recursos próprios, um documentário em aldeias na região do Alto Xingu, no Amazonas, denunciando a omissão do poder público sobre a prática do infanticídio dentro de aldeias indígenas da região.

Prêmio Jovem da Paz

O documentário Quebrando o Silêncio é uma grande reportagem com mais de 80 horas de gravação e três anos de pesquisa de campo. O filme foi exibido em Brasília, no Museu do Índio, e em centenas de aldeias indígenas brasileiras e serviu como reflexão para que as lideranças tradicionais de diversas etnias passassem a orientar a comunidade para salvar a vida das crianças.O resultado deste trabalho, rendeu a Sandra o Prêmio Internacional Jovem da Paz no ano de 2009.

Abertura da Noite dos Museus em Portugal

Sandra Terena é autora da exposição fotográfica “Beleza Ameaçada” que retratou o “Nhandereko” – jeito de ser guarani – um ensaio fotográfico na aldeia Pindoty, na Ilha da Cotinga, litoral do Paraná. O trabalho abriu a Noite dos Museus na Europa em 2007 na cidade de Torres Vedras, em Portugal, onde foi homenageada pelo trabalho.

Pioneira na fundação de Aldeia Urbana

A jornalista Sandra Terena tem sido protagonista na construção de políticas públicas na proteção dos Direitos Humanos. Em dezembro ela participou da comemoração de dez anos da fundação de Kakané Porã, primeira aldeia indígena urbana do sul do Brasil, localizada em Curitiba.

Ao lado do cacique Carlos Karjer, do povo kaingang, Sandra foi uma das fundadoras desta iniciativa inédita que tirou da invisibilidade mais de 35 famílias dos povos guarani, kaingang e xetá que estavam vivendo em situação precária em mazelas na região metropolitana de Curitiba.

Hoje, os indígenas vivem em casas de alvenaria, que foram construídas com recursos do Ministério das Cidades em um terreno doado pela prefeitura. “Foi uma grande conquista. Passa um filme na minha cabeça quando lembro que toda essa comunidade vivia em uma ocupação irregular, insalubre, que tinha apenas um chuveiro frio para todos tomarem banho, no antigo Parque do Cambuí. Dez anos depois, vendo que toda uma comunidade mudou a sua história, percebo que valeu a pena cada minuto da nossa luta”, disse Sandra Terena.

Comunidades Tradicionais

Em 2013 recebeu mais dois prêmios por uma reportagem que trouxe visibilidade a uma causa dos pescadores, marisqueiras e catadores de caranguejo do litoral do Paraná que lutavam há mais de uma década para receber uma indenização causada por acidentes ambientais. Após a reportagem, mais de seis mil famílias conseguiram receber seu dinheiro e o Ministério Público, a partir da reportagem, descobriu uma organização criminosa dentro do Fórum de Paranaguá, no litoral do estado. Os cartórios cíveis foram estatizados e o juiz da comarca foi preso.

Comunidades Quilombolas

Na véspera do natal, a jornalista visitou a comunidade Quilombola Palmital dos Pretos, em Campo Largo, PR em uma atividade promovida pelo Conselho Municipal Étnico Racial do município.

Poder público

No final de 2013, Sandra Terena deixou a redação e foi convidada para ser diretora no setor de Mobilidade Urbana da prefeitura de Curitiba. Nesse período foi representante da pasta nas Conferências Municipais dos Direitos Humanos nas temáticas: Igualdade Racia e da Pessoa com Deficiência. A partir de agosto de 2017 passou a integrar o quadro da Fundação Cultural de Curitiba.

22 de outubro de 2020

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