Acusação do original na arte em questões políticas


(Foto - Cena do filme Alferimage)

"Em uma das cenas mais significativas do filme Afterimage, de Andrzej Wajda, o pintor de vanguarda Wladyslaw Strzeminski ouve a recriminação de um funcionário do governo comunista tcheco de que sua arte formalista, toda feita de linhas curvas e de campos de cor, pecava por sua neutralidade, por sua distância quanto ao – por assim dizer – mundo. O convite do funcionário era claro; que ele deixasse a pesquisa puramente estética que era a sua, emprestando seu talento ao projeto stalinista de construção de um amanhã perfeito e total.

Strzeminski declinou do chamado, e o restante do filme de Wajda mostra o preço alto de uma tal recusa. Não seria o caso de outros artistas que, a partir de 1934, foram solícitos aos acenos do Paizinho dos Povos no Kremlin, como o poeta francês Louis Aragon ou, entre nós, Jorge Amado. O surrealismo, o abstracionismo e outras tendências modernistas serão relegados como esteticismo, como tentativa de “reduzir toda a arte a alguma coisa fora de toda a realidade, de todo o meio ambiente” (as palavras são de um dos mais atuantes grupos influenciados pelo realismo socialista no Brasil, o Clube da Gravura de Porto Alegre; no mesmo texto, os gravuristas não hesitam em qualificar o modernismo de “aberração”).

Esteticismo; a palavra aflorou a alguns lábios para criticar os defensores da liberdade artística durante os recentes embates em torno da arte contemporânea no Brasil. Que atualmente valham-se do termo intelectuais arregimentados antes sob a égide da Igreja de Roma do que sob a bandeira da Internacional, eis algo de significativo de mudanças consideráveis na vida intelectual brasileira. Ainda assim, pode-se duvidar que haja uma diferença fundamental, em sua relação com a arte, entre os censores de ontem, em nome do progresso, e os censores de hoje, em nome da conservação.

(...).

O abstracionismo talvez tenha sido a tentativa artística mais radical de ater-se ao máximo a essa música do sentido na forma – daí, frequentemente em obras abstratas, títulos como “composição” e “ritmo”, numerados tal peças de concerto, quando não as referências explícita à música, como as evocações do jazz nos títulos das telas nova-iorquinas de Mondrian. Era essa indeterminação (muito mais que a neutralidade!), decorrente de uma abordagem musical do sentido, que tornava a pintura de Strzeminski inaceitável ao estalinismo.

Entretanto, não só o censor religioso ou político busca congelar essa música semântica; ao renegar a forma, muito da arte contemporânea partilha dessa ânsia. Por certo, no ato mesmo de eludirem a forma, muitas produções artísticas nas últimas quatro décadas aspiraram a essa mesma eclosão da significação, não pela representação, mas pela apresentação mais ou menos direta, na esteira de Duchamp, de objetos subtraídos ao mundo, com suas evocações sociais, sentimentais, políticas. Ao mesmo tempo, à medida que correntes artísticas dos anos 60 em diante aproximam-se da militância, o próprio anti-formalismo de que em parte se reivindicam predispõem-nas a tornarem-se presas da afirmação unívoca e autoritária de um sentido em nome da causa, agora em conformidade com a esquerda pós-moderna (pós-colonial, anti-racista, pró-LGBT). A verdade moral que essas reivindicações possam conter não deveria justificar qualquer violação da verdade própria à obra de arte. Como diz o Eclesiástico: Não impeçais a música.


Parte do Texto de Rodrigo de Lemos é professor na UFCSPA (RS) e doutor em Literatura pela UFRGS


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