Mal visto aos olhos da vizinhança curitibana, Rubens San luta a favor do boxe


Rubem San recebe o troféu de honra ao mérito, em 1973

Dentro de uma pequena sala de aproximadamente 25 m.² duas pessoas treinam boxe com os únicos dois sacos de bater pendurados, que diferente do vermelho dos materiais novos, ostentam uma cor marrom escura típica dos mais antigos. Num canto, empilhado, está um monte de lona, metal, cordas e outros sacos. Ao lado, um senhor magro, de cabelos brancos, sentado na única cadeira. Ele veste calça social, blusa de lã, sapatos e uma jaqueta de couro preta. Tem jeito de vovô, e nada diria ao contrário se não fosse pelo nariz um pouco torto, a pele já muito fina no supercílio e a orelha um pouco rasgada. Outubro de 2006, praça Oswaldo Cruz em Curitiba.


Trata-se de Rubens San, um boxeador veterano de Curitiba PR, de 66 anos, testemunha e parte da história do boxe paranaense, que dedicou ensinar a nobre arte para quem chegasse.


Neste momento (2006), ele se encontra transtornado: “Olhe só. Tiraram o meu espaço. Está vendo aquele monte? É um ringue profissional de cinco por cinco metros. Onde eu vou colocar agora?”.


San acaba de retornar ao local após um período de reformas. A sala era bem maior, conta, mas diminuíram o tamanho deslocando uma parede modular para aumentar a academia de musculação, que fica ao lado. Segundo ele, é politicagem e não é a primeira vez que tentam tira-lo de lá. A praça funcionava na época como centro de esportes e lazer da prefeitura de Curitiba, e tanto a academia de boxe olímpico quanto ele não são bem vistos aos olhos da vizinhança curitibana e de alguns poderosos, respectivamente.


Mas ele não quer sair do local em que ensina desde o começo dos anos 80. “Não estou recebendo salário aqui desde o início de 2004, quando mudou a gestão da prefeitura. Mas ninguém veio me dizer que eu estava fora. Continuo trabalhando como sempre. Faço porque gosto e sempre fiz, mas não sou voluntário aqui”, desabafa San.


Com curso superior em Educação Física pela Universidade Federal do Paraná, Rubens Peruchon, seu nome de batismo, carrega no currículo títulos estaduais, brasileiros, e outros internacionais, como amador e profissional. Entre eles uma medalha de terceiro lugar dos pesos galos (até 54kg) pela IBF, ou FIB em português (International Boxing Federation ou Federação Internacional de Boxe, respectivamente) e um bicampeonato brasileiro da região centro-sul pela CBP (Confederação Brasileira de Pugilismo), hoje CBB (Confederação Brasileira de Boxe), pela mesma categoria.


“É tanta entidade que a gente não sabe mais o que realmente vale”, diz San na tentativa de explicar a confusão de siglas e instituições do boxe.


Rubens também se orgulha de ter participado da primeira luta de boxe televisionada do Paraná, cuja transmissão foi feita pela antiga tevê Tupi, canal 6, diretamente do clube Duque de Caxias. Além disso, um ginásio na Colônia Penal Agrícola do Paraná, no município de Piraquara, Região Metropolitana de Curitiba, foi batizado com seu nome.

San oferece treino aos detentos num trabalho voluntário. Apesar disso, faz questão de não esconder suas derrotas:


“Se a gente ganha, deve dizer, mas se a gente perde deve falar também. Como profissional devo ter umas 100 lutas. Duas eu perdi por avaliação médica, oito ou seis fui derrotado e tive uns 10 ou 12 empates. Isso fora as como amador e as do circo”, afirma.


Sim, Rubens é do tempo em que boxe se apresentava em circos. No seu caso, as lutas eram feitas no palco dos Irmãos Queirolo e outras famílias circenses tradicionais do Paraná. Também participou destas apresentações Julio Thomazi, o Caninin, que já foi professor de Rubens e é considerado um dos maiores boxeadores do Paraná. Foi em um desses picadeiros que Rubens ganhou o apelido. San é diminutivo de Sansão, codinome adquirido devido a vasta cabeleira que ostentava para os padrões da época.


De acordo com San, quando “guri” se ofereceu para lutar, e os circenses o colocaram nas preliminares. “Iniciei minha carreira como amador aos 13 anos, mas comecei mesmo vendo aqueles filmes americanos de boxe e lutando no circo”. No palco, um dia era boxe, no outro, “teleket” – como San ainda chama o antigo estilo de luta livre coreografada WWE. Nas últimas, ele usava máscara para não ser reconhecido, principalmente pelos pais. No entanto não funcionou para sempre.


Filho de descendentes de franceses e italianos, San nasceu numa família de classe média-alta que morava no bairro Mercês, em Curitiba. Certo dia, conta, seu pai, Geremias Perruchon, um oficial da Polícia Militar do Paraná, estava na platéia. Era dia de boxe, e San, sem saber de nada, entrou para um luta de olhos vendados. No entanto, não existia adversário, apenas o palhaço com uma luva de boxe na ponta de uma vara. Toda a cena foi montada e soou o gongo. Enquanto Rubens procurava desesperadamente seu adversário, que o cutucava por todos os lados a uma distância mais do que segura, a platéia ria e seu pai se enfurecia.


“Tive que ouviu muito aquele dia em casa. No dia seguinte dei uma surra no palhaço”, conta.


Fora dos ringues, Rubens nunca foi dos mais disciplinados. Na vida profissional, foi expulso de três colégios quando jovem, e se acalmou na vida militar. Serviu o tempo obrigatório e entrou para o Corpo de Bombeiros. Não seguiu carreira pois o boxe vinha sempre em primeiro lugar. Tirava muitas licenças para lutar em outros estados e até países. Quando saiu da corporação conseguiu emprego na secretaria do Interior do Estado do Paraná e depois na secretaria do Esporte, quando se aposentou.


No esporte, também arranjou muita briga e está longe de ser unanimidade. Em muitas academias da cidade seu nome é conhecido e comentado, mas as referências nem sempre são boas devido a complicações com ex-alunos. No entanto, diz que não guarda muitas mágoas:


“Muita gente boa já passou por aqui”.


Para se manter, Rubens San conta com o dinheiro da aposentadoria e com um trabalho de segurança preventiva contra incêndios no prédio central da Caixa Econômica Federal, onde cumpre uma escala de 12h por 36h. Da prefeitura não tem mais esperanças de receber, e o trabalho na colônia penal é “sem fins lucrativos”.


Ele também dirige a Liga de Boxe do Estado do Paraná. No entanto, vem enfrentando sérios problemas para manter seu trabalho no esporte. Segundo ele, em 1994 já foi retirado da Praça Oswaldo Cruz e só conseguiu retornar em 1999. Agora querem retirá-lo novamente.


“Não quero sair. Mas essa é uma briga na qual estou sozinho. É a luta mais difícil que já enfrentei”, afirma.


Veja o video - Documentário: San - O Mestre

Texto Fonte - Click aqui - veja mais fotos

*Conheci Rubens San através de meu pai Jornalista de Curitiba, que me contou algumas histórias de quando passou algum tempo com ele para fazer matéria sobre o boxe paranaense.


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